Primeiro encontro, 04 de julho

Seguindo o cronograma de atividades conforme o projeto, iniciamos no dia 4 de julho de 2019 durante o Tempo Universidade (T.U) do curso de Educação do Campo na Unipampa Dom Pedrito, os encontros do grupo de estudos. Aproveitando o período de estudos intensivos do T.U propomos a criação de encontros convidando os estudantes e toda a comunidade acadêmica para participar do grupo de estudos com o objetivo de investigar e estudar materiais teóricos que tratam dos “conceitos chaves do projeto, materiais didáticos e documentos, buscando com eles criar uma análise mais ampla traçando um panorama sobre agroecologia, desenvolvimento rural sustentável e Educação do Campo. ” (Anexo I, pag 2)

Iniciamos o primeiro dia de estudos, fazendo uma breve introdução sobre os objetivos e as justificativas do projeto de pesquisa. Com base no método de pesquisa participativa, abrimos o diálogo entre as e os presentes no encontro sobre quais eram seus entendimentos sobre os conceitos de agroecologia e educação do campo. Estavam presentes estudantes de variados semestres do curso de Educação do Campo em Ciências da Natureza, residentes de diversos locais do Rio Grande do Sul. Iniciamos com o questionamento; “porque educação DO campo e não NO campo? ” Observamos durante o encontro que não há um entendimento aprofundado sobre o histórico de construção e desenvolvimento do conceito de Educação do Campo. Há apenas, a compreensão de que tal conceito surge da resistência dos povos do campo para a permanência e busca por autonomia e soberania cultural. Partindo dessa problemática, levantamos a necessidade de conceituarmos o que seria Educação do Campo. Para isto, propusemos de estudar documentos e textos sobre o tema, trazendo para o próximo encontro algumas noções básicas sobre o conceito. Apresentamos de forma propositiva algumas referências bibliográficas que trabalham com esse conceito. Propomos a leitura doo Dicionário da Educação do Campo, especificamente a parte que conceitua Educação do Campo. E como texto complementar trouxemos como proposta o artigo…

No decorrer do debate fomos caminhando para analisar as noções sobre agroecologia. Alguns presentes já estavam familiarizados, tanto com o debate sobre quanto com as práticas agroecológicas, outros apenas ouviram falar e demonstraram-se interessados em conhecer de forma mais profunda.  Assim como a luta por uma Educação do Campo, a Agroecologia surge da luta e resistência dos povos do campo organizados. Identificamos a partir do estudo e vivência dos participantes do grupo, que existe uma construção histórica que caracteriza o contexto atual do campo no Brasil e na América Latina que forçou as populações do campo a entrarem neste movimento de luta e organização. Ancorados em análises de teóricos base do Projeto de pesquisa explanamos algumas questões que fundamentam tal análise socioeconômica, sociopolítica e sociocultural do campo.

Concluímos neste primeiro encontro que, durante a construção histórica das relações de trabalho e de exploração da natureza vivemos sistemas econômicos e culturais que criaram diversas tecnologias de manutenção e permanência da desigualdade social e das relações de opressão e exploração de um povo sobre o outro. É neste contexto que o campo vem sofrendo com os avanços da modernidade capitalista que impõem modelos que violam as especificidades culturais dos povos do campo, da floresta e das águas. Esta conclusão encerrou nosso debate lançando uma questão para ser debatido no próximo encontro. A pergunta que ficou foi; quais são os contrapontos para esta realidade e quais práticas de resistência tem sido desenvolvida pelos povos e movimentos sociais do campo?

 

Segundo encontro – 11 de julho

Neste nosso segundo encontro iniciamos, novamente, com um breve relato sobre o projeto de pesquisa, pois fizeram presente novos participantes. Relembramos o debate feito no último encontro e avançamos dando sequência aos debates e estudos sobre o conceito de Educação do Campo (seguindo a demanda deixada no encontro anterior).

Havíamos ficado de ler a noção de Educação do Campo segundo o livro Dicionário da Educação do Campo. Com base nesta leitura, tentamos de forma coletiva traçar uma linha do tempo sobre a construção do conceito. Segundo o texto a Educação do Campo surge no seio da luta popular por uma Educação Básica no Campo no início dos anos 2000. Com a leitura complementar do artigo… observamos que o contexto desta luta pela educação básica no campo é fruto da luta pela terra. A modernização do campo imposta pela Revolução Verde, que transformou violentamente as paisagens agrícolas jogando as populações do campo para a cidade, aumentou o nível de miséria e problemas sociais dos de baixos da pirâmide socioeconômica da sociedade capitalista. A modernização do campo se deu de forma intensiva pelo uso de maquinários e novos insumos industriais nas práticas agrícolas e na pecuária. Um fator importante que ajudou a estabelecer essa modernização no campo foi as escolas rurais. A educação tinha como objetivo formar sujeitos para o mercado de trabalho desvalorizando a vida no campo. Diante deste contexto, movimentos sociais e organizações de base camponesa iniciaram diversas lutas contrapondo essa realidade, uma delas foi a luta por uma educação básica do campo. (Souza p.1094)

Os debates e lutas pela educação e escolas do campo estabeleceram princípios básicos para uma Educação do Campo e não no campo. Vimos que diversos debates foram feitos para se chegar a uma noção mínima de educação, mais coerente com a realidade e a luta dos povos do campo. Por mais que haja uma preocupação com a escolarização da população do campo, se tem o cuidado por parte dos movimentos sociais e organizações camponesas em que tipo de educação se quer para o campo. Estudando a construção do conceito, a mudança do termo rural para o termo campo, é fundamental para compreender o contexto dos debates e o contraponto a educação rural. Essa mudança para o termo campo representa, segundo Monica Molina, o sentido de trabalho camponês e das lutas sociais e culturais dos grupos que sobrevivem desse trabalho. Com essa mudança a discussão sobre educação estará voltada para os povos do campo desde suas realidades e pensando na permanência e valorização de suas culturas.

Neste momento do estudo foi levantado uma questão bastante polemica sobre a escolarização dos povos originários. Por mais que o conceito de educação do campo abranja todos os povos e comunidades do campo, como os quilombolas, indígenas, ribeirinhos, caiçaras e camponeses, há por parte de alguns povos indígenas uma problemática sobre o papel e a importância da escola em seus territórios. Esse ponto foi pouco debatido pelo grupo. Um pouco por falta de referencial teórico e também por limitações de apropriação sobre o debate. Mas essa questão nos trouxe a importância de se observar as especificidades das demandas e das identidades dos povos do campo da floresta e das águas.

Tendo em vista a construção do conceito de Educação do Campo no seio das lutas camponesas e dos povos originários, pensamos em investigar se existem materiais didáticos e/ou documentos específicos para as escolas do campo que respeitem os princípios básicos da Educação do campo. Tiramos a demanda de trazer para o próximo encontro do grupo documentos, diretrizes, leis, livros didáticos, revistas, qualquer publicação que seja especifica ou própria para a educação do campo. O objetivo é debater, avaliar e comparar os conteúdos destes materiais com a proposta desenvolvida pelos movimentos sociais do campo.

 

Terceiro encontro – 18 de julho

Iniciamos o terceiro encontro do grupo de estudos propondo a construção e participação do grupo no Encontro de Trocas de Saberes e Sementes Crioulas que estava sendo elaborada por alguns estudantes do curso a partir das trocas de sementes feitas durante os T.Us anteriores. Eu e o professor Marcelo articulamos o evento para ocorrer durante o T.U, pois é um período que diversos povos do campo e da floresta se encontram, sendo assim possibilitaria que a troca de saberes e sementes fosse efetivada. Convidamos outras colegas agricultoras que também são do curso para somar nessa construção do evento.

Organizamos o evento de trocas de sementes criando a programação e tirando demandas e responsáveis, data e horário. Decidimos fazer o evento no dia 22 de julho às 13horas e 30 minutos. Pensamos em alguns métodos e dinâmicas para o debate e as trocas de sementes. Discutimos os objetivos do evento e sua importância tanto para o curso quanto para os povos do campo. O grupo de estudos aderiu a proposta de organizar o evento, pois para o grupo o tema das sementes crioulas é central para a resistência e autonomia dos povos e para a construção de uma transição agroecológica. Este evento poderá servir como elemento pedagógico para as componentes curriculares do curso.

Construímos a programação do evento da seguinte forma:

Sementário – apresentação das sementes pelos participantes

Momento audiovisual – exibição do documentário; “SEMILLAS, bien común o propriedade corporativa”

Roda de conversa acerca da autonomia das populações do campo em relação às sementes e à educação do campo.

Troca de sementes – confraternização final e café solidário.

O segundo momento do encontro do grupo de estudos deixamos para compartilhar alguns materiais didáticos e documentos sobre a educação do campo. Este momento do grupo de estudo acabou sendo rápido não havendo debate sobre. Encerramos o terceiro encontro propondo que todas e todos seguissem estudando sobre o conceito de educação do campo para tentarmos no próximo encontro criar uma síntese dos debates acerca do tema.

 

Quarto encontro – 30 de julho

Devido ao contexto final do T.U nosso quarto encontro teve um número reduzido de participantes, pois muitos estavam recuperando aula e/ou terminando seus trabalhos das componentes.

Infelizmente não conseguimos avaliar e nem debater sobre o encontro de sementes que organizamos e as demandas tiradas do mesmo. Focamos, devido ao pequeno grupo, na síntese dos debates sobre educação do campo. Percebemos que com advento da modernização do campo e o desenvolvimento do agronegócio, houve uma restruturação do campo que culminou na luta dos povos do campo, da floresta e das águas por uma educação própria do campo para o campo. Observamos que a escolarização do campo tanto serviu para o êxodo rural como possibilitou com que os povos do campo estabelecessem um processo de emancipação e autonomia cultural e econômica. A criação da Educação do campo trouxe uma nova perspectiva para os povos do campo, valorizando e fortalecendo os conhecimentos tradicionais e populares destes povos. A educação do campo para nós tem o poder de instrumentalizar e propiciar com que as populações do campo, da floresta e das águas se apropriem dos conhecimentos científicos sem descaracterizar seus conhecimentos tradicionais. A luta por uma educação do campo e para o campo é garantir a sobrevivência e a permanência das populações e comunidades desses territórios.

Com essa sistematização dos últimos debates, avançamos no processo de pesquisa do projeto. Propusemos de introduzir o conceito de tecnologia social para dar base para estudarmos as práticas e teorias sobre agroecologia. Para tal proposta, convidamos o grupo de pesquisa em tecnologia sócia da UFSM para elaborar uma atividade formativa durante o T.U. Articulamos com o grupo da UFSM que a atividade fosse no dia 1 de agosto para trocarmos experiências e fortalecer as pesquisas. Encerramos o encontro tirando o acordo de seguir nossos estudos para além do Tempo Universidade e que se possível, todas e todos comparecerem na atividade proposta para o dia 1 de agosto.

 

Referências Bibliográficas utilizadas nos encontros:

Dicionário da Educação do Campo / Organizado por Roseli Salete Caldart, Isabel Brasil Pereira, Paulo Alentejano e Gaudêncio Frigotto – 2. Ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Expressão Popular, 2012.

Educação do Campo: Políticas, Práticas Pedagógicas e Produção Científica / Maria Antônia de Souza, Educ. Soc., Campinas, vol. 29, n. 105, p. 1089-1111, set./dez. 2008.

Vaz Pupo, Marcelo.  Por uma ciência popular da vida: educação do campo, agroecologia e tradição biocultural /Marcelo de Albuquerque Vas Pupo – Campinas, SP: [s.n], 2018.

TOLEDO, V.M.; BARRERA-BASSOLS, N. A memória biocultural: a importância ecológica das sabedorias tradicionais. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

Categorias: Sem categoria