Na sexta-feira, 15 de maio, a Professora Gabriela Carcaioli, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, nos deu a oportunidade de compreendermos a importância das narrativas na formação de educadoras e educadores no contexto da Educação do Campo e do fortalecimento dos territórios camponeses. Como sugestão de leitura, ela nos oferece o artigo Tecendo uma rede de narrativas: práticas curriculares e artefatos culturais mobilizando memórias coletivas .

A atividade aconteceu às 15:30 e contou com a participação especial de dois Educadores formados pela Licenciatura em Educação do Campo da UFSC: Lucas Ruth Furtado e Antony Josué Correa. Veja na íntegra a atividade gravada no Canal Youtube do Coletivo:

Ao ler a definição de “narrar” em um dicionário, podemos afirmar que narrar é uma forma de comunicação popular muito usual entre os povos do campo, das florestas e das águas. Está ligado à capacidade individual e coletiva de expor um fato, relatar um acontecimento, uma situação real ou mesmo imaginária, através das palavras de um idioma, seja pela linguagem oral ou escrita.

O ato de narrar, assim, está vinculado com o trabalho manual, com os saberes e práticas de conhecimento utilizadas nas tarefas diárias dos povos, no cuidado com as crianças, no preparo da terra, no ritual religioso, na contação de histórias ao redor das fogueiras e até mesmo com as lutas e batalhas necessárias na manutenção da existência das pessoas. Ou seja, as narrativas populares nos contam dos domínios comportamentais ¹ camponeses e indígenas.

1 – Domínio comportamental é o conjunto de procedimentos, reações, condutas que caracterizam determinado grupo social. O domínio comportamental  representa a ideia de que não existe separação entre prática e pensamento, ação e reflexão, fazer, ser e conhecer. Todo domínio comportamental, dessa maneira, é um domínio cognitivo e se manifesta na linguagem e pela linguagem, pelos significados atribuídos a todo ação que se realiza .

Na medida em que a Educação do Campo inaugura um novo capítulo das teorias pedagógicas e assume o território camponês como espaço onde se aprende, diversas metodologias de pesquisa se desenvolvem com o intuito de sistematizar esse conhecimento territorializado, ou seja, conhecimento vinculado com as tradições culturais das pessoas que no território habitam. Nesse sentido, as narrativas populares se tornam objetos de interesse da pesquisa na Educação do Campo, explicitando a valorização dos saberes e práticas de conhecimento que animam a vida no campo, nas matas e nas águas.

De certa forma a trajetória acadêmica da Professora Gabriela Furlan Carcaioli expressa esse interesse pelas narrativas e, no artigo sugerido para nossa leitura, ela nos mostra que as narrativas contribuem para a formação de educadoras/es não só na pesquisa, mas também no Estágio de Docência, por exemplo.

Atualizado dia 20 maio 2020: Confiram abaixo algumas reflexões escritas por participantes da atividade do dia 15, sobre suas impressões, percepções acerca do que foi apresentado pela Gabriela, Lucas e Antony. Mais abaixo, segue também uma reflexão sobre o artigo sugerido para leitura.

Reflexão escrita pelas pessoas que participaram da atividade
Jane Mara Machado de Souza
1º semestre LECAMPO

Narrativas são o que as pessoas contam, sobre suas vivências ou de vivências ouvidas de seus ancestrais.

O aprendizado pra mim, foi a importância do resgate das histórias dos lugares. Manter essas histórias vivas, incentivando os moradores do local e trazendo-as para dentro da sala de aula. Ouvir essas vozes, os saberes da comunidade, os valores, a cultura e incluí-los na educação é um processo necessário. Então, conhecer as pessoas, fazer um levantamento geográfico e histórico do local, de como vivem as pessoas, faz parte do vivenciar de um educador. Assim, a educação pode vir a ser, um aprendizado para ambos, um compartilhar conhecimentos, uma troca em crescimento.

Maria Caroline Gonçalves de Souza

Bom a experiência deles me chamou a atenção pelo simples fato de que puderam trabalhar todo o seu conteúdo de aulas, práticas e teóricas que tiveram e conseguiram absorver. E levar aos seus alunos uma outra realidade de que um simples estagiário, pode sim ser muito melhor do que se pensa ao invés de falar outras coisas como (algo ruim não saber como contornar diversas situações em sala de aula). Mas como foi estágio em dupla com a ajuda de seu colega ficou facilmente de se apoiar um ao outro.

Perante o assunto o tema escolhido deles foi da realidade da comunidade e de bastante interesse pelos alunos deram esse retorno, de um tema que eles conseguem dominar com o apoio do professor e dos familiares que contribuíram, com a sabedoria dos alunos.É possível notar que teve alunos com desinteresse em aulas mas quando os meninos chegaram e falaram suas propostas a eles apesar de ser um pouco difícil de lidar, pra alguns alunos tímidos como todas às vezes até em casa conseguiram se relacionar melhor com os seus familiares e trazando eles para participar e compreender de que pode haver várias maneiras de se pedir ajuda.   Sendo chamar a atenção deles além da bronca e do castigo.

O assunto era de erva pelo que lembramos da mística as narrativas deles também foi bem elaborada trazendo o interesse de despertar dos alunos a determinados assuntos que se pode juntar varias matérias numa única coisa, vamos aos relatos deles de que isso ajudou os alunos tiveram um ótimo desempenho comportamentos mudados para melhor, elogios foram feitos aos alunos e estagiários.

Deste jeito poderíamos sair das caixinhas que as escolas estão o Estado determinas aos professores de que só tem esta forma de se aprender, tivemos uma história magnífica relatada pelos estagiário e orientadora deles de que precisamos mudar nossos modos de apredizagem mais além da caixinha que somos inseridos, que fique boa para ambas partes.

O exemplo de narrativas contadas por pessoas antigas passando para seus primogênitos e fantástica com as ervas que conhecemos cura e com a fé tudo muda tudo melhora o suficiente de acreditar.

O pequeno projeto feito no semestre anterior remete um pouco disso “fala de Maria Caroline“, eu tive esse pensamento quando fiz o meu projeto horta na escola e sim conversei com os alunos e foi interessantes eles querem saber mais dos alimentos sem proteínas, e o cultivo deles em escola e residência; levei varios conteúdos, explicações e experiência que os alunos adoraram demais e que se desse para ter aquelas aulas de ciências dos mesmo modo que passei a eles, com certeza ia ter mais interesse e afinade para absorver todo o conteúdo dado de várias maneiras mas como nem todos saem da caixa pra perceber a diferença do ensino”.

Adorei saber as reflexões dos meninos por isso quero trabalhar o diferente nas escolas mas sempre com a horta dentro de tudo, consegui imaginar várias hipóteses de que existe sim uma educação diferenciada. Como os outros vão falar mas que deste modo trago os conteúdos sem dificultar a absorção dos alunos.

Reflexão sobre o artigo

Resumo: O presente texto procura lançar um olhar para a formação de professores do campo no Brasil, apresentando a potencialidade das narrativas como artefatos e práticas curriculares do trabalho docente, a partir de uma experiência de Estágio Supervisionado em um curso de Licenciaturas em Educação do Campo. Nesta experiência, acadêmicos do último ano de formação procuraram, a partir de artefatos, envolver estudantes do Ensino Médio, comunidade escolar e comunidade local em um processo de diálogo de saberes e experiências, produzindo narrativas individuais e coletivas, com objetivo de trabalhar elementos da identidade local dos sujeitos e assim, realizarem a seleção de conteúdos científicos para serem trabalhados durante a regência de aulas. Enfatizando o protagonismo dos movimentos sociais nas lutas por uma educação do/no campo e por uma nova concepção de formação e de escolas nas áreas rurais, o texto destaca o papel das Licenciaturas em Educação do Campo em formar educadores capazes de lutarem por uma sociedade justa e igualitária, posicionando-se criticamente sobre a crise socioambiental e o globalizado modelo hegemônico de desenvolvimento, atuando de forma pedagógica nas comunidades rurais e exercendo a docência interdisciplinar. Narrativas dos estudantes do Ensino Médio em diferentes momentos de partilha de experiências e narrativas produzidas a partir dos relatórios dos acadêmicos estagiários, que analisam e comentam o processo do estágio docência, compõem este texto e dão base para reflexões sobre a potencialidade das narrativas na ressignificação do trabalho docente em sala de aula.

Introdução
  • Narrativa para Walter Benjamim: a narrativa é uma forma artesanal de comunicação, que pode estar rareando na vida moderna e capitalista, ligadas à contação de histórias, de transmissão de experiência, de tornar-se narrador.
  • Narrativa e vinculação com trabalho manual, com domínios comportamentais camponeses, com práticas de conhecimento mormente vinculadas aos significados culturais não capitalistas.
  • Na escola: currículo narrativo ao invés do currículo prescritivo.
  • Narrativas estudantes e comunidade como subsídio ao desenvolvimento do Estágio Docente nos diferentes momentos pedagógicos e na seleção de conteúdos para regência.
  • Oficinas Temáticas: momento de produção das narrativas.
  • Tempo dos processos narrativos: lembrar, narrar, refletir sobre o vivido.
  • Tempo da análise da narrativa: pré-análise, leitura temática e leitura interpretativa-compreensiva (Souza, 2014).
Enquadramento Teórico
  • Adoção da narrativa como teoria e prática docente e postura/abordagem dialógica e dialética.
  • Postura dialógica e dialética: construção de sentido por todos os participantes do processo formativo.
  • O sentido não se reduz à consciência de um indivíduo/professor. É preciso vivenciar a experiência do eu individual e coletivo para projetar a convivência plena. A reflexão coletiva sobre o que somos e fazemos possibilita esse projetar a convivência plena.
  • Seria o objeto das narrativas o mundo de inter-relações e cognições e os elementos que nelas intervém? Ou seja, para a narrativa enquanto método interessa sua dimensão histórica.

Não nos interessa “cristalizar” as sociabilidades camponesas-indígenas, o que seria inviável. Nos interessa lutar pela manutenção das condições que permitem a projeção da convivência plena; nos interessa garantir a reflexão sobre o mundo de inter-relações e cognições ligada a essa projeção. Entendemos que as sociabilidades de base camponesa-indígena-popular apresentam características relacionadas à manutenção e garantia das condições de projeção da convivência plena. Assumimos que o mundo de inter-relações e cognições gerado pelo modo de vida camponês e indígena informam à humanidade alternativas para viver e conviver plenamente.

“Convivência plena”, hoje, tem a ver com a plenitude da vida em congruência com a biosfera, nos diferentes ecossistemas ocupados pela humanidade. A questão ecológica que surge pela massificação do modo de vida industrial e capitalista nos estimula a reconhecer nas sociabilidades não-capitalistas fontes necessárias de inspiração para revolucionar a maneira como somos e estamos no planeta.

  • Narrativa e memória, narrar é rememorar, buscar imagens do passado. Exige trabalho árduo.
  • Rememorar e encontrar o significado do passado no presente

É nesse sentido que cristalizar as sociabilidades camponesas não deve ser o entendimento quando se valoriza a práxis de seus sujeitos. O sentido mais proveitoso é, pela rememoração e busca de imagens do passado, saber construir no presente as condições de um futuro melhor, pleno.

  • Recordar não é relatar, a diferença é que a recordação envolve carga emocional, fatos memoráveis, em que fique claro o lugar de consolidação e apoderação das recordações.
  • Memória coletiva: ancestralidade e atualidade
  • A junção das memórias se dá no processo criativo com que cada indivíduo descobre sua singularidade — sempre inscrita em um contexto sociocultural, em um domínio comportamental.
  • A palavra viva da narrativa emana a essência espiritual de um domínio, que se comunica na linguagem e não pela linguagem.
  • O importante de nosso trabalho com as narrativas, como educadoras e educadores, seria captar essa palavra viva.
  • A palavra viva é capaz de fazer emergir a sabedoria de um coletivo

A sabedoria de um coletivo, para nós da Educação do Campo, se refere, por um lado, à capacidade de organizar resistências às históricas violências das classes/grupos dominantes. Organizar resistência contra a colonização europeia e em seguida organizar resistência à modernidade capitalista (que manteve uma estrutura colonial).

Por outro lado, a sabedoria de um coletivo camponês-indígena-popular tem relação com a capacidade de seus domínios comportamentais oferecem a plena convivência, do ponto de vista de lida com ecossistemas, seus fatores bióticos e abióticos. Os domínios camponeses e indígenas organizam sociabilidades em que o apoio mútuo e a solidariedade são marcas dessa sabedoria, assim como a reciprocidade com as entidades não-humanas de seus ambientes.

Do ponto de vista biológico, estes domínios são importantes pois conservam a congruência estrutural com o meio em que vivem. Esse meio envolve as interações intraespecíficas, entre pessoas, e as interações entre pessoas e demais seres vivos, entre pessoas e elementos abióticos. Ou seja, a satisfação biológica do indivíduo ocorre na legitimação do outro na convivência, e isso é o quê funda o social: somos humanos quando integrados na dinâmica social. Satisfazemos nossa singularidade ao convivermos em um grupo que legitima todos seus integrantes.

Ao mesmo tempo, a satisfação biológica de uma população humana repousa em alterar a paisagem a partir de ações com alto grau de integração e congruência com o sistema ecológico presente nesta paisagem, reorganizando as interações com outras espécies sem desequilibrar a dinâmica promotora de saúde e qualidade de vida de toda a comunidade biológica.

  • A reprodução dessa sabedoria está ligada ao pertencimento que se tem ao coletivo que a produz; ou seja, partilhar a palavra viva, as sabedorias através da rememoração e das narrativas gera pertencimento.
  • Ao serem contadas, as narrativas vão se transformando, expressando a mistura entre as memórias ancestrais e as atuais.
  • Na educação, é preciso descobrir e aprofundar o potencial formativo das narrativas — reflexão e mediação de diálogos, experiência e conhecimento.

Em contextos de pesquisa e em práticas de formação, os acordos mútuos entre sujeitos em formação bem como profissionais em acompanhamento e processos de mediação biográfica dialogam sobre o lugar da oralidade e da escrita como dispositivos que possibilitam reflexões sobre a vida, a formação, as trajetórias individuais e coletivas, bem como sobre o respeito à liberdade, autonomia e democracia individual e social (SOUZA, 2014, p. 40)

  • Narrativa: entre a denúncia e o anúncio, reestabelecendo identidades coletivas — criação e reinvenção de práticas curriculares na formação de educadores.
Organização metodológica do Estágio Docência
  • Oficinas temáticas em um semestre subsidiando regência em outro semestre
  • No primeiro semestre de ED ocorrem interação, observação e intervenção, respectivamente com professores, de aulas e em sala de aula com estudantes;
Referências