Há um certo debate que circula em meios acadêmicos, mas não só, trazendo a ideia de “crise contemporânea”, ou “crise civilizatória”. É evidente que as questões ambientais são disparadoras de diversas análises que culminam nestes termos, porém mais abrangentes são as argumentações que procuram esclarecer que as mazelas humanas têm, no sistema capitalista, sua mais evidente causa, notadamente pela sua necessidade intrínseca de estabelecer misérias – sociais, econômicas, culturais, subjetivas.
A que mais intriga-me, no entanto, são as palavras que procuram dissecar e relacionar aos efeitos interpretados pelo termo “crise” a ausência de um legítimo regime perceptivo da “realidade”, das relações “complexas” dos atores e suas redes no emaranhado de coisas e existências que o ser humano é capaz de inventar em sua ação no planeta.
Diversos produtos culturais caminham neste sentido, desde os mais pop’s como os filmes Avatar, Matrix, ou mesmo aqueles que encontram-se no pensamento científico (e que não por isso deixam de ser um produto de nossa cultura) – lembremos de Fritjof Capra e seu livro-filme “Ponto de Mutação” (The Turning Point), a “Árvore do Conhecimento” de Humberto Maturana, ou então os diversos enfoques que os filósofos desenvolvem para pensar vida e existência, ou até o talvez mais debatido neste meio – “A Estrutura das Revoluções Científicas”, de Thomas Kuhn.
A Agroecologia encontra-se também nesse círculo de raciocínio, sua epistemologia, ou suas raízes conceituais, se estabelece em outro paradigma, questionando o positivismo, o modo cartesiano de pensar e agir no mundo e, neste caso, no pensar a produção agrícola.
Foi movido pelo contato com estas ideias que permaneci estudando, atuando e elegendo como “parceira acadêmica” a tal da agroecologia, e em seus contrastes e contradições, inerente a qualquer processo que mobiliza gentes e coisas, resolvi deslocar meu olhar de pesquisador para enxergá-la.
Ou ainda, cego frente às significações que ela, poderosa, gera nos espaços que frequento, desloquei-me institucionalmente para tateá-la sob outras dobras e perspectivas e encontrei o mestrado em Divulgação Científica e Cultural para estudar a campesinidade que nos mora e as movimentações cidade-campo sob o aspecto das imagens.
As linhas e parágrafos que se seguem trazem reflexões que serviram como suporte para o projeto de mestrado, colagem textual que produzi para lidar com os tumultos e inquietações que o contato com os sujeitos do campo em mim produzem.
Pensemos então a crise contemporânea: capitalismo mundial integrado, economia de lucro e relações de poder, degradação sistêmica de culturas e habitats, monopólio midiático e mídia monopolizante, criminalização de movimentos sociais, insustentabilidade do paradigma dominante.
São muitas as palavras que nos ajudam a designar este ininterrupto mal-estar civilizatório. Nos habituamos a vivenciar um mundo destituído dos direitos mais básicos. Vivemos num sistema cujo projeto hegemônico, apesar de não declarado como tal, está fundado na disputa e na negação mútua entre os indivíduos, sob o convite à livre competição.
Sob o eufemismo “mercado livre e sadia competição”, somos educados para interagir a partir da negação do outro. Dessa forma, a competição não é e nem pode ser sadia. Como fenômeno cultural e humano, a competição nega a cooperação na convivência. E esta mesma negação, institucionalizada, acaba por destruir o mundo natural que nos sustenta.
Parece-nos que a única democratização que se efetiva é aquela do terror do consumo. Fundamentado na fragmentação e negação das diferenças culturais e dos modos particulares de expressão, este terror impõe à globalização uma única forma de acontecer, que nos desterritorializa e faz de nós “mínimos-eus”, seres aptos a consumirem a mesmice industrial.
Ao debater ação social em um seminário na universidade percebemos a dificuldade que existe de nos “integralizarmos” naquilo que somos por completo. Como se nossa personalidade estivesse fragmentada entre o trabalho, a família, a vida em geral, como se não houvesse inter-relação entre o que fazemos no dia-a-dia. Percebemos também a falta de espaços onde pudéssemos refletir sobre isso.
Lógica semelhante serve para pensar a comida: até mesmo os alimentos estão sujeitos à minimalização – refinação, pasteurização, esterilização, café sem cafeína, queijo sem gordura, doce sem açúcar. A lógica da redução de custos tem feito dos alimentos verdadeiros “placebos nutricionais”.
A indústria alimentícia vem retirando ingredientes básicos de seus produtos a fim de torná-los mais rentáveis. A sensação de fome persiste, ensejando o aumento do consumo de mais alimentos com baixo teor nutricional. O mesmo mercado que produz a fome também oferece as cápsulas de suplementos alimentares. Vemos de novo a lógica da fragmentação a favor do terror consumista.
Testemunhamos o império do mercado mundial que lamina e nega o que somos; desconstitui nossa maneira de existir em nossos territórios; desalinha-nos a sabedoria de viver integrados aos sistemas sociais e naturais que remontam às nossas origens, desagregando-os: árvore sem frutos, soja sem grão, planeta sem atmosfera, ar sem pulmão.
A modernidade tem nos apresentado modos de vida que evoluem no sentido de uma progressiva deterioração. Pautados numa “razão-pura”, nossa forma de produzir conhecimento igualmente nos achata, pois se baseia em sistemas de valor “unidimensionalizantes”. Uma
ciência alérgica a todas as coisas sensíveis que ela tende a desprezar, pelo motivo de que elas não podem reduzir-se a uma intelectualidade pura.
Não legitimamos (e desperdiçamos) o conhecimento de inúmeras culturas tradicionais, assim como desconsideramos o saber sensível detido pelo corpo humano. E até mesmo o embotamos, ao não desenvolver a sensibilidade dos indivíduos. Fatos também explicados pela ciência que ao ser financiada por este império mundial, torna-se um mero instrumento de seus desejos.
Vemo-nos rodeados de evidências do desestímulo a qualquer refinamento dos sentidos humanos, promovendo a sua regressão a níveis grosseiros. Nossas cidades, relações pessoais e as coisas que criamos refletem o processo que faz de nós, e do mundo, doentes: prédios anoréxicos e casas sem afeto, negócios paranoicos e conversas frias, horizontes ocultos, mãos que só tocam o artificial, alimentos feito às pressas e de modo automático, insossos, contaminados e modificados industrialmente, produzidos em monoculturas neurótico-obsessivas… Entorpecidos psiquicamente, reprimimos nossas reações aos detalhes básicos, mantendo uma inconsciência que aliena e desorienta nossa alma interior.
Ditado pela razão-pura tornamos hábito o distanciamento com nosso ser biológico. Condenamos ao esquecimento o fato de que o humano é justo aquilo que se constitui no entrelaçamento do emocional com o racional. Estamos “antolhados” pela máxima de que o que caracteriza o humano é a razão, e cegos frente à emoção, que fica desvalorizada como algo que nega o racional.
No entanto, se pensarmos as emoções e seus conjuntos como “disposições corporais que especificam domínios de ação”, podemos concluir que não há ação humana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como ato.
Via de regra, predomina hoje certo “domínio de ações” que nos impulsiona a disputar com e a negar o outro, incorporando assim a competição e a disputa como condições de sobrevivência. As emoções envolvidas nessa relação, portanto, têm especificado um conjunto de ações que nos levam a este quadro de progressiva deterioração.
No entanto, quais são os domínios que fundam as ações humanizadoras? Ações que têm permitido ao longo das eras a manutenção de um modo de vida que se caracteriza pelo compartilhar alimentos no prazer da convivência, no querer estar junto? Se a história do ser humano está permeada destas características, podemos constatar a existência de domínios de ações que fazem do outro um legítimo outro na convivência, de forma a ampliá-la e estabilizá-la.
Ações baseadas na colaboração são constitutivas do humano e são o fundamento do social. Interações humanas baseadas em ações diferentes destas parecem não implicar na legitimação do outro na convivência – aplicadas de forma massiva, não seriam estas ações as responsáveis pelos distúrbios do indivíduo e do mundo: desequilíbrio, esquizofrenia, loucura?
Parece haver uma convergência onde observamos a criatividade em ação: diversas comunidades humanas expressam formas de convivência na partilha e na colaboração. Porém, parece haver também um aniquilamento dos agenciadores que permitem saber e “saborear” estas expressões humanas – cegos, surdos e distantes de qualquer contato com elas.
A esta anestesia geral que nos atinge, é necessário outras poéticas políticas, que, ao promoverem a reabilitação dos sentidos, criam uma razão mais ampla e nos possibilitam saberes mais abrangentes – uma razão que enxergue os entrelaçamentos cotidianos que
constituem o viver humano, dando-se conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional.
Novos discernimentos podem ser estimulados, ajudando-nos a compreender a temporalidade dos fatos e a varar a aparente unidimensionalidade deste período para atingir o ontem, reconhecer o hoje e inventar o amanhã.
Transcender o tempo, discernir os fatos, dialogar o mundo que se sente, comunicar e participar parecem ser ações envolvidas numa nova articulação ético-política, em um novo paradigma estético. Articulação onde as dimensões ambientais, sociais e subjetivas sejam
recombinadas no sentido de uma resinificação das experiências coletivas, afim de constituirmos outros territórios onde a humanidade seja viável, percebida e vivenciada.
Se ampliarmos o espectro do que é “real”, aí encontraremos, ao menos, maiores possibilidades do existir. No filme Matrix, o protagonista – Neo – emerge subitamente do plasma onde se mantinha cativo e aprisionado no mundo virtual processado pela matrix. Como um bebê parido que inicia uma nova etapa, o primeiro respiro pulmonar do protagonista nos inspira a refletir sobre os “despertares” para outras formas do fazer acontecer.
Que mundo é esse que se apresenta pra nós? Que realidades nos são servidas, como o prato principal, nas escolas, nas ruas, na TV? O mesmo fast-food como que embalado num jornal de letras mortas, descartável, desenriquecido, esterilizado da lanchonete da esquina?
Uma sociologia das ausências seria capaz de nos indicar práticas sociais que hoje são consideradas por muitos como ausentes, quase imperceptível para o conjunto da sociedade (Quem formula as manchetes?). As culturas dos povos do campo, da floresta, povos indígenas, ribeirinhos e camponeses, se adaptam à conjuntura do presente criando estratégias de reexistência em direção ao futuro.
Carregam consigo formas predominantemente não-capitalistas de viver; transmitem modos de vida onde o saber acumulado tem sido o aliado na reprodução de sua cultura e na manutenção das condições que garantem sua sobrevivência, não fazendo do conhecimento associado a estes saberes instrumento de opressão e discriminação entre os diferentes grupos sociais.
Se nos voltarmos para os trânsitos sociais campo-cidade, constataremos que a antiga previsão do inevitável desaparecimento dos camponeses, frente ao avanço da agricultura industrial e do capitalismo no campo, vem sendo continuamente contrariada. Diante de um
mundo crescentemente urbanizado, novas ruralidades apontam caminhos fecundos para a redistribuição demográfica e a descentralização econômica.
Outras racionalidades e pensares não-capitalistas ocorrem em várias regiões, protagonizados por famílias agricultoras e suas organizações. Efervescem, em todo campo, agriculturas populares.
Em uma atividade realizada em Sumaré-SP, refletimos sobre o que víamos em uma das unidades produtivas do Assentamento III. Aquela plantação de frutas em nada se assemelhava ao ordenamento padronizado dos laranjais de Limeira-SP, que são vistos até mesmo da
rodovia Anhanguera. Não. Nem mesmo as goiabeiras enfileiradas de outros lotes do assentamento se comparavam àquele pomar. A começar pelo nome de batismo: Pomar… Pomar não nos remete a apenas uma fruta, pensa-se logo em várias. E caminhar por ele não
permitiria, tão cedo, que se nos achegasse a monotonia: eram muitas as surpresas num breve
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