Como reflexão a partir de um exercício prático, vale o relato da realização do vídeo Queremos uma Kombi, que integrou a campanha “Uma Kombi para as Mulheres da AMA”. O vídeo foi finalizado no início de 2013, e a produção deste material audiovisual esteve inserida num específico contexto institucional, fato que permitiu alguns desdobramentos metodológicos que nos serve de análise.

A Associação de Mulheres Agroecológicas do Vergel (AMA) é um grupo popular que se constituiu no Assentamento 12 de Outubro (Horto Vergel, Mogi Mirim) que desde 2005 mantém uma estreita relação com a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unicamp (ITCP). O processo de incubação que vincula estas duas entidades inspira-se em conceitos, dentre outros, como os da educação popular e da autogestão com o propósito de elaborar uma produção agrícola pautada nos princípios da agroecologia e das questões de gênero – são eixos como esses que em boa medida influenciaram o argumento, roteiro e montagem do vídeo produzido.

A ITCP/UNICAMP é um projeto de extensão universitária que desde 2001 congrega pessoas de diversas áreas do conhecimento dentro da universidade. Fruto da luta de estudantes por um projeto de extensão mais próximo da realidade do município de Campinas e região, a incubadora surgiu com o objetivo de contribuir na formação e assessoramento de empreendimentos econômicos solidários tendo como proposta a construção de um conjunto de práticas de mutualidade e ação coletiva que fomentem um modelo econômico conectado às realidades locais dos trabalhadores e trabalhadoras e que permita a construção de relações sociais igualitárias.

Sensível a estes propósitos, a equipe de agricultura da ITCP em conjunto com a AMA, ao constatarem que um dos principais obstáculos ao escoamento da produção se refere à ausência de um veículo apropriado que possa garantir sua comercialização direta, resolvem submeter um projeto de compra de uma Kombi ao financiamento colaborativo. O fato é que a plataforma escolhida para este financiamento tem como característica a condição de que os projetos submetidos utilizem o audiovisual como instrumento de apresentação e divulgação ao escrutínio do público financiador.

A determinação da linguagem a ser utilizada na sensibilização das pessoas que pudessem apoiar a compra do veículo aliada ao interesse desta pesquisa com as imagens campesinas resultou no convite formal para que as filmagens necessárias fossem feitas. Vale mencionar que tanto eu quanto o outro pós-graduando envolvido na gravação do vídeo já conhecíamos as mulheres da AMA exatamente pelo envolvimento com a ITCP, quando compúnhamos a equipe de agricultura da incubadora durante os anos de 2008 a 2010.

Esse primeiro contato mostrou-se essencial para estabelecermos, em parceria com a atual equipe de agricultura, um diálogo aberto e de confiança com o grupo de mulheres durante a captação das imagens.

O debate político e a clareza do grupo frente à realidade dos assentamentos rurais permitiram que a formulação do argumento no vídeo se desse de forma ampla, enriquecendo os momentos de negociação e reforçando o caráter pedagógico próprio das atividades da incubadora. Escolher o que seria dito e transmitido pelas imagens e sons desdobrou-se em vários encontros entre a equipe responsável pela captação de áudio e vídeo e as mulheres da associação.

A convergência de postura entre os integrantes da equipe em torno dos princípios da educação popular e da autogestão teve como consequência (em algum grau previsível) a completa subversão do planejamento traçado – extremamente pontualizado e indiferente frente às derivações e rumos que a abertura de tomada de decisões junto às mulheres pudesse ganhar. Vale constar que este fato tornou-se evidência de que o que estávamos propondo neste trabalho apresentou-nos algo inteiramente novo, definitivamente pelo modo como a experiência foi conduzida entre os envolvidos; pela abordagem tecida ao pensar a linguagem audiovisual, ainda que o resultado final tenha explorado de maneira mais evidente um caráter instrumentalista acerca das imagens.

kombiclique na imagem para ver o vídeo

Desde o início foi proposto um caminho metodológico que estivesse atento – na busca de conteúdo audiovisual – a elementos discursivos “racionalizados” e provenientes de um raciocínio linear, verbalizado através de uma entrevista semi estruturada no ambiente “físico”, como o cômodo de uma casa ou um canteiro no lote.

Porém, as discursividades que emergissem do plano sensível presente na constituição identitária das mulheres ali presentes foram igualmente objeto que esteve presente em nossa intencionalidade de criação visual, de modo que imagens de opressão, esperança, resistência e injustiça assumissem forma e profundidade estética, não mais no “concreto” de uma sala, mas no espaço subjetivo pelo grupo inventado.

Os primeiros encontros com a associação dedicaram-se a detalhar a proposta em suas implicações mais amplas: o significado social e político do financiamento colaborativo, como funciona tecnicamente a ferramenta proposta pela plataforma escolhida, qual abordagem estaria a nosso alcance enquanto produtores de vídeo não comercial, estratégias de ações que pudessem ser efetivadas para além da internet com o intuito de fortalecer a campanha “Uma kombi para as mulheres da AMA”.

Concluído o momento inicial e tomada as decisões necessárias por parte das mulheres para seguimento da ação, aos poucos os encontros ganharam um contorno mais objetivo, sendo possível identificar no conjunto geral das informações aquelas que sintetizassem o que deveria, aos olhos da associação, ser dito ao público espectador. Foi com base nestas informações preliminares que os roteiros semi estruturados puderam ser definidos, orientando a equipe técnica na efetivação das entrevistas filmadas.

Ademais, este primeiro acúmulo subsidiou igualmente os contornos que teriam as “oficinas do sensível”, responsáveis por fazer convergir em videografia as dimensões subjetivas do trabalho na associação, reafirmando a importância de introduzir nas cenas enredadas sobretudo a memória e a imaginação das mulheres. A captação de imagens partiu da ideia de se registrar o conteúdo eleito para o vídeo no cotidiano de seus afazeres. Essa proposta implicou a visitação em três casas/lotes no assentamento e um grande volume de material captado.

Houve também um momento de definição conjunta do roteiro do vídeo. Uma oficina foi realizada na ITCP para resgatarmos a linha histórica do processo de criação do vídeo, desde os primeiros argumentos, passando pelas visitações e oficinas do sensível. Esse processo culminou na exibição de trechos brutos do material gravado, já minimamente decupados e organizados em falas, passagens, cenas montadas pelas oficinas, sons ambientes, mas ainda sem uma edição coesa e esteticamente finalizada, sem trilhas ou fundo musical. Foi nesta atividade que se definiu o roteiro e como deveria ser guiada a edição final.

As condições materiais dos assentamentos são explicitamente reconhecidas pelo grupo, tais como a estagnação a que está sujeito o grupo desde 2005, no que tange condições de escoamento da produção agrícola. É evidente a consciência que têm as mulheres a respeito da exclusão que sofrem do mercado varejista; as inúmeras dificuldades em viabilizar a própria produção orgânica; a iniquidade nos acordos comerciais com grandes varejistas; o imenso gargalo no escoamento da produção em grande parte devido à atuação muitas vezes criminosa dos atravessadores que no assentamento surgem; o preconceito que enfrenta os sem-terras na superação da ideia de “vagabundo que não quer trabalhar”; a indignação que sentem ao constatarem a extrema exploração da mão-de-obra dos assentados perpetrada por empreendedores capitalistas que possuem maquinário e transporte investidos no beneficiamento da produção de mandioca plantada pelo próprio trabalhador rural, fazendo com que o grupo de mulheres se perguntasse: “afinal, porque esta infraestrutura não pode estar em nossas mãos?”.

Temas como agrobiodiversidade, produção orgânica de produtos alimentícios, resiliência dos agroecossistemas, preservação de espécies locais, trabalho e gênero, permanência no campo, escala e produção orgânica, nicho mercadológico e estratégia de comercialização, escoamento da produção e ausência de políticas públicas adequadas, burocracia e discriminação, entre outros estiveram presentes no vídeo.

No começo de 2013 a campanha foi ao “ar”, permanecendo por 40 dias aberta à doação financeira dos internautas. A meta foi ultrapassada em mais de 10% ao final do período estipulado. Um impacto significativo – e polêmico – do vídeo foi funcionar como ponte de contato entre a AMA e o apresentador da TV Globo Luciano Huck, cujo programa gravado com as mulheres foi ao ar no dia 18 de maio de 2013. De acordo com o programa, além da Kombi outros itens estruturantes não só do escoamento mas também da produção foram doados ao grupo, tais como um micro-ônibus, um pequeno trator, uma cozinha industrial aparelhada, uma conta bancária com capital de giro, além de formação com agrônomos no tema de produção orgânica de alimentos.

A intenção das mulheres com o vídeo esteve atrelada à finalidade da campanha inserida na plataforma de financiamento colaborativo, e a edição final apostou em elementos mais convencionais do material audiovisual, como a narrativa linear e a concepção da imagem como suporte à narrativa textual atrelada à representação do real. No entanto, boa parte do material filmado corresponde a linguagens menos usuais. De maneira autônoma e objetivando esta pesquisa, algumas cenas desta experiência subsidiaram, por exemplo, a edição de Videofonograma.

Haveria possibilidade de se fazer um debate a respeito do impacto das imagens neste contexto de massificação estético-política, a ver pela cooptação por uma estrutura do porte da TV Globo em suprir materialmente uma associação como a AMA, utilizando para isso exatamente a narrativa formulada na experiência relatada.

Mas é, sobretudo, a especificidade das “oficinas do sensível” que chama a atenção para a definição de alguns esboços metodológicos na criação de narrativas audiovisuais em parceria com grupos camponeses. O impulso criativo das mulheres interessava-nos pela aposta de que muito tem ele a nos dizer, de que grande força argumentativa adviesse ao expormos à tela memória e imaginário pertencente à trajetória da Associação de Mulheres Agroecológicas do Vergel.

As oficinas do sensível foram elaboradas a partir de técnicas do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. A intenção destas oficinas foi constituir o que Boal chama de “espaço estético”, aquele que se faz pela interpenetração de outros dois espaços, o da cena e o da plateia. Essa superposição de espaços surge da criação subjetiva de quem especta por sobre o que existe, o físico; um é contemporâneo enquanto o outro viaja no tempo. O espaço estético existe na separação entre dois espaços ou na dissociação de dois tempos; ele se forma porque para ele convergem atenções… buraco negro que atrai, centrípeto.

A ousadia inicial era transpor o que havia sido descrito para o teatro para conceber uma dada videografia; era utilizar a capacidade de subverter o tempo pela edição não linear do vídeo e potencializar as propriedades do espaço estético, em especial as gnosiológicas, que estimulam o saber e o descobrir, o conhecimento e o reconhecimento – propriedades que induzem ao aprendizado e reforçam esta “videteatrografia” como uma forma de produção de conhecimento.

Surge implicada então a pergunta de quais os conceitos de imagem que poderiam estabelecer correlações entre o que se coloca como espaço estético e o que se coloca como formas de produção de conhecimento.

Para Boal são a memória e a imaginação (que fazem parte do mesmo processo psíquico) que projetam sobre e dentro do espaço estético os elementos que são ausentes do espaço físico, a saber: as relações afetivas e oníricas. Efetivamente Queremos uma Kombi utilizou apenas uma das diversas cenas filmadas através das oficinas do sensível – justamente a que inaugura a edição, cujo diálogo é iniciado ainda nos letreiros de abertura, e que é também a mais bem humorada cuja situação a que se remete confere um tom clownesco ao vídeo.

A tragédia do carro enguiçado a caminho da feira foi reformulada em comédia a partir da lembrança e da inventividade das mulheres na circunstância da filmagem. A leveza promovida pelo humor da cena foi um dos fatores de escolha para compor a edição final, em contraste com outras cenas sobrevindas de oficinas onde algumas “máquinas”, como a do desamor, a da indiferença, a da discriminação foram elaboradas (corporalmente) como temas a serem trabalhados num momento preliminar do roteiro.

As oficinas do sensível compuseram então os espaços estéticos nos quais emergiriam correspondências com a trajetória do grupo e que contivesse elementos de relevância para a sensibilização dos futuros apoiadores da campanha. Essencialmente os espaços estéticos (nesta experiência) são espaços onde tudo o que é dito tem como suporte o que foi, um passado revisto, revisado, recolocado.

E parece ser aqui a ponta por onde uma parecença possa ser feita, onde a imagem também apresenta um passado, “só que este passado não é só aquilo que foi possível de ser visibilizado, visualizado ou narrado, é também aquele conjunto de multiplicidades que não aconteceram, não tiveram tempo de acontecer ou eram muito rápidas ou muito lentas”, então não houve tempo…

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O passado com o qual fazemos emergir coisas que não aconteceram mas que não por isso deixaram de existir é o passado da virtualidade; o virtual é o domínio ao qual está indissociado o atual – todas as imagens concretas que vivem entre nós e que nos constituem. É no virtual que repousa aquilo que não se efetuou mas que continua sendo latente e potente, acontecimento ainda não acontecido, o acontecimento que é o sentido que a virtualidade guarda.

O espaço estético-afetivo pretendido pela videteatrografia é aquele tornado “dicotômico, porém assincrônico: ele é o que é e é o que foi ou o que poderia ter sido, ou poderá vir a ser. É no presente e também é no passado lembrado ou no futuro imaginado.” [57]

Essa junção experimental em torno de uma relação com o acontecimento pode ser entendido como um propósito de videografar as oficinas do sensível. O espaço estético de Boal poderia ser um contorno ou a imagem própria nesta perspectiva de Deleuze?

A relevância do conceito de imagem-tempo surge nessa pergunta. A imagem-tempo é aquela que desfaz a distinção entre atual e virtual porque torna indiscernível a própria distinção entre presente e passado. Ela seria uma expressão do impensado, do que ainda não foi presentificado; o virtual existe também como reflexo do real, uma espécie de “vasto universo cristalino” de imagens virtuais, de memórias, sonhos e mesmo mundos – a imagem-tempo seria a germinação da semente cristal, um ponto de indiscernibilidade convergido por passado e presente, atual e virtual [58]

A plasticidade do espaço estético possibilita o arrasto pela vertigem do sonho, perdendo contato com o espaço físico, concreto e real; sua propriedade onírica nos oferta atravessar o espelho onde tudo se funde e confunde [59]. A montagem de cenas vividas pelas mulheres da AMA procede a ação que permite a concreção de algum desejo; porém reviver esse desejo é reificá-lo. Nesse processo não apenas os desejos declarados são reificados, reifica-se não apenas o que se quer reificar mas o que existe e ainda não é.

Duas suposições apresentam-se na pesquisa, a primeira é de que há uma semelhança conceitual a ser tecida entre o espaço estético e a imagem-tempo, e a outra de que a metáfora entre suas definições poderiam ser “fraternizadas”, um comum haveria de ser reificado e atualizado; cenas promotoras de imagens-tempo que catalizam o acesso ao arquivo da memória latente no corpo e no cérebro, pelo corpo e pelo cérebro; atualizar o virtual através do contato do pensamento (e da ação) com os signos implicantes (envolventes) do real: imagens, gestos, figuras, toques, olhares e movimentos.

Essas suposições culminam numa relação metodológica que integraria procedimentos de criação e captura de imagens; procedimentos que poderiam atuar em sinergia com as metodologias participativas, com a educação ambiental e popular.widget93

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