Foi durante o ano passado, 2012, que fizemos* as filmagens do vídeo que agora está linkado no Catarse, na forma do projeto Uma Kombi para as Mulheres da AMA. Como de costume, o planejado não correspondeu ao acontecido, e mais uma vez um trabalho com as mulheres da Associação de Mulheres Agroecológicas se desdobra em vivência, em memória, em refazimento do que somos – porém, aqui, refeitos de terra assentada, lutada e conquistada pela força viva das famílias que lá no Vergel hoje vivem. Certamente é do significado desta lição tomada – por vezes chamada educação popular, extensão, estágio de vivência, incubação ou mutirão – que este blog toma corpo, dos sentidos que terra nos ganha, enraizando-nos de humanidade possível, potente.

O coletivo da ITCP Unicamp que o diga: o que seriam três ou quatro atividades pontuais se transformaram em diversas, tantas quantas o processo pedagógico nascido exigiu; tantas quantas a proposta de estabelecer o espaço estético** solicitou – e as filmagens foram surgindo neste instante, quando o que era cena e o que não era interpenetraram-se, o que era a vida física das mulheres, cotidiana, entrelaçou-se à subjetiva, fios de memória ocorrida e imaginada pela força inventiva que é, afinal, suas próprias rotinas. A cena inicial do vídeo, em que elas têm de empurrar o carro quebrado, foi a única escolhida dentre aquelas que foram filmadas “teatralmente”: as mulheres definiram quais assuntos gostariam de transmitir, pelo vídeo, aos usuários do Catarse, e utilizando técnicas do Teatro do Oprimido montamos cenário e cenas que reavivassem as experiências na roça, na lida com os atravessadores, nas injustiças, na força do grupo de mulheres, na ausência de um transporte que lhes dessem, enfim, maior autonomia na comercialização.

Está lá, lançada ao financiamento colaborativo, mais uma esperança construída pelo exercício político de unir universidade e assentamento, representado pela equipe de agricultura da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unicamp, mas que tem por trás todo um movimento por indissociar ensino, pesquisa, comunidades, cooperativas, em nome de uma universidade porvir, popular.

* Nós aqui refere-se ao “Anônimos Produções”, coletivo de imediato que uniu eu, Wilon e Maíra da ITCP.
** O espaço estético é um conceito do dramaturgo Augusto Boal, em “Arco Íris do Desejo”, ramo do Teatro do Oprimido.


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