Massacre de Eldorado dos Carajás, terror em Corumbiara. Violência no campo: capitanias intactas, mortes hereditárias. Que espécie de herança nos deixa a morte dita severina? Nos últimos 30 anos testemunhamos, ao mesmo tempo, a ascensão dos movimentos do campo e o aniquilamento de muitos de seus integrantes. Os conflitos agrários, as mortes no campo, o imenso – sempre o mesmo, latifúndio – especulação, concentração, modernização, ah sim, o progresso. Analisar a questão agrária no Brasil inevitavelmente nos mostra que ela não circunscreve-se à escritura dos hectares em disputa. Outros símbolos entram em cena, e percebemos então que o território disputado é tão material quanto imaterial: fatos distintos cada qual na produção de seu fruto, produto agrícola, mas também o é os signos e códigos, por vezes próprios, linguagens ímpares que o idioma corrente, acadêmico ou popular, mostra imiscíveis capital e soberania, commodities e segurança alimentar, monocultura e resiliência, latifúndio e dignidade humana. A ocupação de terra prolifera dizeres e atravessamentos que reverberam em editoriais jornalísticos, em transmissões de TV, em discursos inflamados, em vidas que se assentam… por fim, reconfiguram o universo do possível.

Em primeiro lugar, uma revolução é uma ruptura na ordem do que é visível, pensável, realizável, o universo do possível. Os movimentos de revolução sempre tiveram a forma de bolas de neve. A partir do momento em que um poder legítimo se encontra deslegitimado, parece que não está em condições de reinar pela força, porque caíram todas as estruturas que legitimam a força. Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas. As instituições perdem a legitimidade, aparecem novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação, novas formas da economia, e assim por diante. É uma ruptura do universo sensível que cria uma miríade de possibilidades.¹

Foi a década de 90 que apresentou-me essa miríade de possibilidades – abalando o perceptível estabelecido os movimentos sociais do campo romperam barreiras da comunicação monopolizante e fizeram-se ouvidos, visíveis ao menos por instantes. Foi na conjectura destes instantes des-ausentados que algumas perguntas desaterraram-se: “O que a voz da herdada morte quer nos dizer?”. Talvez essa seja a pergunta mais motivadora, a que mais nos mobiliza e nos faz deparar com as divergências, desavenças, hostilidades, indiferenças entre aqueles que ao redor da cova (a de palmo medida) se anelam, há séculos. Esta outra, “Quem (ou o que) transmite o som desta voz, seu entendimento, reivindicação, mensagem, sua visão de mundo?”, nos direciona a atentarmos para os mediadores, transmissores, receptores e atravessadores das mensagens que podem traduzir os códigos em jogo – processos históricos, argumentação, ficcionalidades, perspectivas, possibilidades, recriação.

Lidar com este tema teria mais similaridade com o simples exumar de velhos momentos caso a repercussão destes não implicasse em sua própria perpetuação. A atualidade dos fatos recobra-nos, mais do que uma exumação, vivificar (através da procura pelas respostas das perguntas acima) os significados postos na mesa.

Com profunda tristeza e indignação, nós, trabalhadores da educação, estudantes, pesquisadores e pessoas comprometidas com a formação humana emancipadora, justa e igualitária, homens e mulheres que reconhecem e questionam o mundo, considerando o conhecimento produzido pela humanidade em busca de uma ação transformadora no sentido da afirmação da vida, não podemos aceitar em hipótese alguma e tampouco nos calar diante da morte e da barbárie que se manifesta contra os lutadores do povo no campo brasileiro. Os cinco assassinatos ocorridos em sequência nas últimas semanas no Pará e em Rondônia, que evocam aqueles que também morreram por defenderem a vida e a justiça no país, atestam que o inadmissível continua acontecendo no Brasil, e com requintes de crueldade típicos de tempos em que atos bárbaros estavam na esfera da legalidade.²

Os Estudos Culturais compreendem a cultura como jogos de significados partilhados entre os membros de uma sociedade e que se enredam em representações que circulam por entre outros espaços de produção de sentidos. Politicamente, tal campo de estudos enfatiza a importância da cultura na estrutura e na organização das sociedades, com especial ênfase ao papel das relações de poder nesse contexto. A pesquisa de mestrado “Bem-te-vis imagéticos no encontro com o outro: olhares da movimentação cidade-campo” se propõe a discutir produção de sentidos a partir do tema da agricultura camponesa, compreendendo que as culturas dos povos do campo vem dialogando com a conjuntura atual e criando estratégias de re-existência e permanência na matriz produtiva.

Esse conjunto de fenômenos que se insinua de forma quase imperceptível para o conjunto da sociedade pode ser sintetizado pela noção de recampesinização do mundo rural. De fato, quando são considerados em conjunto, esses processos encontram sua coerência nas motivações dos camponeses de continuarem existindo e, dentro do possível, de prosperarem num mundo que lhes é cada vez mais hostil. Contrariando a antiga previsão do inevitável desaparecimento dos camponeses frente ao avanço da agricultura industrial e do capitalismo no campo, são exatamente eles e suas organizações que se apresentam nos dias de hoje, em plena era neoliberal, como uma das mais significativas forças de resistência à ordem hegemônica da globalização.³

Joseph Rouse nos mostra que, para os Estudos Culturais das Ciências, a ênfase é dada no entendimento de que as práticas científicas são historicamente situadas, em padrões significativos de interação com o mundo. O que podemos esperar deste íntimo entrelaçamento entre mundo e ciência? Coevolução no processo de síntese e gestão do conhecimento? confluências, interferências, ou a encarcerada indissociabilidade? Ao contrário de áreas como a Educação, a Ciência e Tecnologia, no âmbito do público, não conta com uma política nacional tecida democraticamente e que poderia orientar as ações governamentais – quadro que, no mínimo, abre espaço para a formulação de políticas de “gabinete” (afinal de contas, o que significa projetos de ensino e pesquisa sendo induzidos por critérios quantitativos dos centros de fomento?).

Tão longe e tão perto: se as práticas científicas situam-se num contexto histórico, mundanalmente influenciadas por quem as faz, este “mundo” e sua multiplicidade a desconhece tanto quanto a prática científica esquiva-se dele: Mero ranço político fruto da abissal divisão de classes? Simples ruptura política da produção acadêmica que adota o discurso único em detrimento do que nos tem a oferecer as minorias? inércia? depressão? descenso popular? Cultura científica entorpecida pela aniquilação do sentido dos sentidos?

Separados pela atitude filosófico-científica que definiu os tempos modernos, na verdade a grande maioria da inteligentsia, ao longo desses séculos, nunca chegou a admitir que a dimensão sensível humana pudesse consistir numa forma de saber; quando muito, a ele se emprestava um estatuto inferior, na medida em que seu grau de subjetivismo não lhe permitia padronização e confiabilidade. A “visão quantofrênica do mundo” sempre desprezou como “não científico” tudo aquilo que, feito os sentimentos, não pudesse ser objetivado quantitativamente, e, corolário natural de tal pensamento, aquilo que não é científico não pode ser considerado um saber ou um conhecimento verdadeiro.4

Como estabelecer uma estratégia investigativa arrodeado de armadilhas como essas, sem ulcerar diante de uma ciência alérgica às formas, às aparências, a todas essas coisas sensíveis que ela tende a desprezar, pelo motivo de que elas não podem reduzir-se a uma intelectualidade pura?. Uma ciência sem um caráter rizomático, em termos deleuzianos, parece incapaz de respeitar o caráter público da universidades pública, fazendo desta cúmplice feroz do império mercadológico mundial que lamina e nega o que somos, que desconstitui nossa maneira de pensar e existir em nossos territórios; que desalinha-nos a sabedoria de viver integralmente e integrados aos sistemas sociais e naturais que remontam às nossas origens, desagregando-nos: árvore sem frutos, soja sem grão, planeta sem atmosfera, ar sem pulmão.

Cremos que ignorar o que está em jogo no contínuo desenvolvimento das práticas científicas é uma posição política que joga no risco de fortalecer a brutalidade nas relações entre conhecimento, poder e cultura – ainda negamos que a subjetividade e os ideais dos pesquisadores aparecem em seus produtos? Pautado pelos Estudos Culturais, podemos compreender a cultura como os significados partilhados entre os membros de uma sociedade ou grupo, e que ela tem importância direta em sua estrutura e organização.

Sentidos, poderes, conhecimentos; exercícios políticos, fomento, produção científica… reagentes e catalizadores do imenso metabolismo social que corporifica instituições, estabelece regras (formais ou não) para os fluxos circulatórios de gentes e coisas, nutridos pelos interstícios econômicos, artísticos, políticos e poéticos, que agregam-se em territórios existenciais com mais ou menos organicidade, mais ou menos harmônicos, em estados provisórios, latentes, sempre em (des)equilíbrio dinâmico. É neste “arremedo de estamparias” que elegemos algumas categorias conceituais, algumas forças-que-formam pensamento para discorrer sobre a movimentação cidade-campo. Se o preço desse arremedo é facear frontalmente o imaginário imposto da modernidade, aceitemos o desafio tal qual Bruno Latour se lançou:

Qualquer que seja a etiqueta, a questão é sempre a de reatar o nó górdio atravessando, tantas vezes quantas forem necessárias, o corte que separa os conhecimentos exatos e o exercício do poder, digamos a natureza e a cultura. Nós mesmos somos híbridos, instalados precariamente no interior das instituições científicas, meio engenheiros, meio filósofos, um terço instruídos sem que o desejássemos; optamos por descrever as tramas onde quer que estas nos levem.5

Optando por este caminho analítico assumimos que o tema da questão agrária pode ser ricamente estudado quando a análise crítica se pauta em suas dimensões culturais, em seus “processos” ou “redes” que tecem essa questão, no exercício acadêmico de gerar conversações entre retóricas, políticas e epistemes; Que as atividades sociais relacionadas com o ato de ocupar e socializar a terra para produzir alimentos (e com o ato de impedir este ato), ao requererem seu próprio universo distinto de significados e práticas nos fornecem pistas valiosas tanto para compreender os agenciamentos expostos e os produtos culturais à isso relacionado quanto para subsidiar a produção de outros sentidos, em articulações que tenham interesse à Divulgação de Ciência e Cultura e à Educação. Se o deslocamento político e conceitual tem sido regra no campesinato, percebemos também um continuum no existir gestado pelo imaginário camponês, misterioso e fora do alcance da razão pura – palavras, gestos, entonações, timbres, tonalidades das trajetórias de vida de pessoas com distintas origens culturais, mas que têm pela terra e pelo ato de interpretá-la uma característica única, que nos abastece a mesa e a memória de futuro.

Na tentativa de ir ao encontro dessa “memória do que virá” e colocá-la sob rasura, surge uma terceira camada da produção audiovisual – nem áudio nem vídeo, uma terceira margem que pulsa em nós todos. A experimentação dessa terceira margem em imagens e sons é, no campo da linguagem, o que esta pesquisa traz como contribuições para a discussão de conceitos – tais como identidades, diferenças e política – que são relevantes ao campo dos estudos culturais.

* Trechos e adaptação para o blog do artigo “Imagens e sons da Terra, produção de sentidos culturais”, escrito por mim e pelo meu orientador na pesquisa, Antônio Carlos Rodrigues de Amorim, para o Seminário Brasileiro/Internacional de Estudos Culturais e Educação.

Notas:

1. Jacques Rancière, entrevista a revista Cult;

2. Manifesto Contra a Violência e a Morte no Campo Brasileiro, escrito por várias entidades em 2010;

3. Paulo Petersen, em Agricultura Familiar e Camponesa na Construção do Futuro;

4. João Francisco Duarte Júnior, em O Sentido dos Sentidos – a educação (do) sensível;

5. Bruno Latour, em Jamais Fomos Modernos;


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