Casa invadida, casa ocupada. E inundados, temos que, necessariamente, fazer escolhas – também acadêmicas. Travessias, pensamentos, leituras, (re)encontros… Encharca-se nossa própria cristalização e permanência… Subverte-se (mixando nossas identidades) o tempo, o som, o pulso do que nos seduz e repulsa. Apropriamo-nos do caldeirão ditador de receitas científicas, mas ensaiamos experimentais temperos untando seu gélido metal com algum sumo d’arte… Pitadas de notas musicais excomungadas da convencional escala cromática – saboreando, no entanto, à larga colherada, cores refratadas de nosso alvo espectro, sem saber ao certo o que repousa em cada um de nós da colorida paleta, tantos devires…

É o audiovisual que incita dizeres e visibilidades na pesquisa, como artefato material no esforço de exprimir palavras, gestos, atitudes suscitados pelos conceitos e experimentos mergulhados… Quem mergulha no quê? Ele em nós ou nós neles? Quem-o-que inunda e o-que-quem é inundado? Movimentamo-nos pelo ritmo ou somos, em carne e osso, o próprio? E a inundação permanece sem nos darmos conta… fingida imperceptibilidade em forma de tênue goteira… Até que se faça dilúvio, in-ventamos velas e jangadas-salva-nos-da-morte para persistir em vida.

Junto a tantos intercessores criamos e somos recriados em ideias e identidades, inúmeros pontos, esses foram os pontos, que pixelados em tela vão formando o tecido de nossa compreensão – e também a moldura do vídeo. Repetição discernível entre quem éramos antes e quem nos vamo fazendo. É o movimento de retração e expansão que choca os sentidos, e em seu respiro faz-se escrita, donde habita condensado um pouco do que somos/estamos.

Uma inversão despercebida, olhares que nos veem, imagem que nos observa. Uma cumplicidade que crê no vagarim da aparecença do duplo da imagem, imagem subjetivando permissividades na trincheira das consciências.

Se proponho talhar sentido político-estético à experiência vivida, permito desagues sensíveis que em algum momento da travessia conduziram-me ao projeto e seu feitio no programa de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural. Abalos identitários, devires múltiplos, anarquias ontológicas, embates de classe, entrincheiramentos políticos… sob tantas vertentes de interlocução trata-se de estabelecer um plano de criação que possa ser de interesse às articulações da divulgação, da educação. Exprimir por este plano as singularidades do caos camponês que ainda não se efetuaram, considerar o campesinato uma realidade múltipla que possa nos servir de extração e atualização de individuações que renovem sua potência de transitoriedade, sua capacidade de sempre fuga dos aparelhos de captura e cooptação.

Do que existe o que pode ainda existir? Essa talvez seja uma questão orientadora, que nos leva a sintetizar o que entendemos do que já existe, o que do já efetuado nos pertence em consciência e reflexão? e posteriormente tencionar os elementos que valem fazer distinção, fazer diferir e desdiferenciar, no risco desejado de que outros elementos deste processo surjam e realimente o ciclo que produz a possibilidade do novo, contínua militância do refazer.widget4

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.