Os textos analíticos da vida camponesa nos sugerem [45]: desde a práxis intelectual e política de autores russos do século XIX até as sistematizações de experiências contemporâneas, vimos preenchidos de multiplicidades no existir – a expressão camponesa investigada transmite-nos modos de vida onde o saber acumulado tem sido um aliado na reprodução de sua cultura e na manutenção das bases ecológicas que garantem sua sobrevivência, não fazendo do conhecimento associado a estes saberes instrumento de opressão e discriminação entre os diferentes grupos sociais; ao ler os trabalhos publicados constataremos que a antiga previsão do inevitável desaparecimento dos camponeses, frente ao avanço da agricultura industrial e do capitalismo no campo, vem sendo continuamente contrariada.

Que força é essa, fundada sobre este modo de vida que se reinventa na permanência? que tessituras esse modo de vida produz? O que na vida destes sujeitos marca sua persistência, seu sertão? – “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar” [46]. O que em suas vidas enreda o aprendizado-cuidado com a terra, marcada por atos como colher, plantar, semear, podar, arar, revolver, esperar?

Diante de um mundo crescentemente urbanizado, novas ruralidades apontam caminhos fecundos para a redistribuição demográfica e a descentralização econômica. Outras racionalidades e pensares não capitalistas ocorrem em várias regiões, protagonizados por famílias agricultoras e suas organizações [47]. Efervescem, em todo campo, agriculturas populares.

Que potência emerge dessa dimensão ética que insiste, há gerações, numa perspectiva solidária e cooperativa – mas constantemente marginalizada do “real”, invisibilizada? Se não está estabelecida no real, onde estaria? uma entidade falsária que desgrilhoa nosso território sub judicie e desfaz a forma identitária estritamente urbana, invocando outras paisagens subjetivadoras… Melhor seria perguntarmo-nos que potência esse falso discurso tem em abalar a identidade autocentrada do eu-eu (que iconiza o sistema dominante?) fazendo-nos cogitar que outro eu seríamos nós? O que emergiria se abandonando o antagonismo ao outro, o eu transmutado em desenclausuração abrisse espaço, à imagem permissiva dum eu lírico, às vozes que expressam o imaginário camponês de maneira que o mundo deste, antes exterior, se convertesse em vivência interiorizada?

Essa dinâmica imprimida pelas comunidades rurais, analisada de maneira retro e perspectiva, permanece gerando rupturas na ordem do que é visível, pensável e realizável no metabolismo social, oferecendo continuamente – por estar sempre excluso, ausentado – reconfigurações no mapa do sensível, fruto da força contida nos enunciados políticos à ela vinculados. Pela natureza do conhecimento associado, pela cosmovisão que nutre a integração a um específico modo socioprodutivo é que a pesquisa estimula-se, movimentando-se pelos sentidos que sobressaem da escuta às vozes camponesas, que irrompe identidades e fixações, deformando a concepção do estático existir. Trincas e frestas, dilacerações políticas no campo da “agronegociata de massa”… e o som permanece entoado, dado a invocar ânimo poético que acolhe e oferece ao nobre desejo de humanidade enferrujado de vida fabril uma chance de madureza.

Que forma de agir e pensar é esta, camponesa, que resiste à morte da memória e com ela persistida (pois intrínseca a eles e nós todos) reelabora o real, a práxis, a vida (não só a deles, mas do conjunto)? Quais marcas nos fazem, quais são seus processos de aprendizagem? E que mundo é esse que se apresenta pra nós? Que realidades nos são servidas, como o prato principal, nas escolas, nas ruas, na TV, nas instituições públicas ou privadas, na igreja, no cinema? O mesmo fast-food como que embalado num jornal de letras mortas, descartável, desenriquecido, esterilizado da lanchonete da esquina? Se Boaventura de Sousa Santos nos propõe uma sociologia das ausências para “expandir o presente”, valorizando assim a experiência social que está em curso no mundo de hoje e evitar seu desperdício, como pensar uma “imagem das ausências”?

Ausência sociológica e ausência filosófica, a que está e não é vista e a que foi mas ainda não é e que também expande o presente a partir reificação do passado; plano de contato com a virtualidade, atualização de referências para a expansão de ontologias possíveis e luta em estesia, política da percepção e das sensibilidades.

Das inúmeras imagens que do campesinato se sucedem, quais se quer fazer emergir? aquelas que conotam ações contra hegemônicas? que fazem propostas frente à crise? que identificam novas subjetividades no perene conflito de reinventar-se? que emergem das mutações existenciais derivadas deste processo de recampesinização? que cristalizam conscientemente interpretações das novas ruralidades do campo ou ainda as que expõem a metamorfose da (nossa-minha) memória imortal? Imagens-tempo que condensam passado e presente campesino, inventando o lugar onde o pensamento toma contato com o impensado latente.

Penso a imagem em movimento como artifício disparador de significações que cingem o tema da dissertação e que dê e que abra visibilidade ao acervo que reúne do mundo camponês aquilo que me irrompe e aquilo que penso serem suas erupções – estas pautadas pelo nucleação política que a movimentação social organizada no campo gera e coaduna. Jacques Rancière subsidia aqui noções conceituais para pensarmos o movimento que gera no campo cultural os movimentos sociais do campo: “A política é essencialmente estética, ou seja, está fundada sobre o mundo sensível, assim como expressão artística. Por isso, um regime político só pode ser democrático se incentivar a multiplicidade de manifestações dentro da comunidade” [48].

Neste universo, que semânticas (visuais) são translúcidas, ou pretende-se que sejam, e quais não se fixam, não são dadas nem estabelecem referência na gramática do real? Como realizar em vídeo uma linguagem que manifesta a instabilidade fronteiriça entre memória e imaginação; educação, arte e divulgação; estética e política?

São experimentações imagéticas pautadas nessa compreensão que formam margens reflexivas no fazer pesquisa em divulgação científica e cultural. A imagem, ao permitir conexões não lineares, oferece um artefato propositivo para lidar com as impermanências conceituais, as nossas próprias – efetivando o aspecto propositivo –, as da sociologia, da antropologia, pedagogia e da própria agroecologia, confrontando seu cerne paradigmático que preconiza horizontalidade entre conhecimento acadêmico e não acadêmico – uma modalidade do ser consequente no reconhecimento da multiculturalidade comunitária? Faz compreender a insuficiência institucional apenas constatar esta disciplina não reverberada – ou plena de incômodo – por seu próprio corolário.

Essa concepção imagética fez-me compreender a peça-chave que faltava para dar sentido ao desejo de investigar a agroecologia e as movimentações cidade-campo: uma materialidade que enfim condiz, congruência com o fim a que se destina. Afinal como tratar a vigorosa promiscuidade entre a centralidade política-popular da agroecologia e sua vertente acadêmica sem prefixá-la com “trans”: transgressiva, transverberada, transluzida de enredo científico que exige outra abordagem teórico-metodológica, talvez uma particular existencialidade agroecológica que experimente o enlace que Félix Guattari propõe entre o mundo subjetivo, mundo social e o mundo da natureza [49].

Há realidades (e identidades) sendo reeditadas e há comuns: imagens desconcertantes tanto quanto ocupação de terra são movimentos – enquadres ou sociais – que cartografam no real diferenciais concretos e simbólicos, rearranjam e singularizam num contexto de ideias massificadas, no exercício de torná-los imagens que sobrevivam “ao fluxo aniquilante, ao ‘esgoto público das imagens’ que nos atravessa”. Imagens desvinculantes e ação social transgressora atribuem interferência ao real postulado (oficial ficção). E elas assustam. A conjura dos falsários é vista como inimigo poderoso: à ruptura na ficção de Estado sobrevém a ideia de uma força subversiva, relativizadora da razão instrumental; à potência do falso sobrevém a vontade de verdade instaurando regimes de exclusão e supressão de discursividade desviante [50].

Nada de novo no front? É testemunha o escrivão da coroa portuguesa que lavra regulamentações no reino – contemporânea à decretação da capitania hereditária é a sumária determinação que garantia à metrópole exclusividade de impressão e publicação, reservando à colônia a severidade punitiva – mortal – de quem ousasse imprimir sentido dissonante à realeza. Há portanto dessintonias que podem ser videografadas quanto ao tema e quanto à linguagem. Esse colonial embate hoje permanece sob o signo de velho e novo latifúndio – agrário e aéreo –, vastidão territorial e restritivas ondas no ar, ao gosto de emissoras e suas “públicas” concessões.

A destinação da pesquisa vai percebendo a importância estética/política deste contexto, e opta pelo exercício de descortinar os temas eleitos neste intrincamento. Investe na abertura de novas regiões apreensivas onde não se diferenciam o pensar e o expressar, valorizando a ideia de que a percepção e a sensibilidade de indivíduos e grupos constroem os espaços. Ela permite-se dar vazão a reflexões pedagógicas acerca da imagem e do modo pelo qual ela remodela a comunidade e o mundo:

A imagem que no senso comum ainda é uma representação do mundo, a duplicação de algo, torna-se atuante, sujeito, “forma que pensa”, que afeta e é afetada. A imagem está carregada de todas as qualidades e potencialidades que definem o “humano”. É a potência da imagem experimentada como sujeito. A imagem nunca foi investida de tanto valor. Esse valor é real e simbólico: a imagem-publicitária, a imagem-capital, as imagens produzidas no campo da arte, que podem atingir valores irracionais, mas também o valor afetivo incomensurável de certas imagens com as quais nos relacionamos, que têm uma duração, que sobrevivem ao fluxo aniquilante, ao “esgoto público das imagens” que nos atravessa. Há uma potência das novas imagens, da imagem eletrônica, das imagens digitais, desterritorializadas, que também precisam ser pensadas do ponto de vista estético, econômico e como modo de produção de uma nova sociabilidade.” [51]

O interesse investigativo consiste na relação entre as sociabilidades que surgem pelos vetores analíticos da pesquisa: a sociabilidade da imagem atuante enquanto “forma que pensa” e que porta valor afetivo, e aquela forjada pelos povos do campo que fazem do outro um legítimo outro e que conotam formas de convivência na partilha e na colaboração.

A “trajetória pedagógica” pela qual nos conduz a vida acadêmica nos apresenta distintas visões a respeito do que é educar – na educação popular, por exemplo, estabelecer relações horizontalizantes entre os envolvidos na relação ensino-aprendizagem é uma busca, uma intenção. Dialogicidade e respeito mútuo são princípios defendidos onde os envolvidos na atividade educativa se rearranjam no binômio educador-educando. Por que as pessoas que intencionam essa prática intencionam essa prática? Elisa Gonsalves [52], ao revisitar as práticas em educação popular, lembra-nos de que é a busca pela autonomia do indivíduo que caracteriza esta área.

Porém, mesmo a práxis da educação popular pode, paradoxalmente, levar os indivíduos não à emancipação, mas à dependência, como argumenta a pesquisadora. Portanto o que se busca aqui é problematizar a forma como pensamos a produção do conhecimento; é revisitar essa intenção de autonomia, que se move pela certeza de que as práticas educativas podem exercer outro papel que não oprimir e ma(n)ssificar, controlar e cercear. Transcender o tempo, discernir os fatos, dialogar o mundo que se sente, comunicar e participar são ações que Paulo Freire destaca no ato de “existir”, imprescindível numa proposta libertadora de educação [53]. Existir assim parece envolver a articulação ético-política de Guattari para um novo paradigma estético, no sentido de ressignificar a experiência individual e coletiva a fim de construirmos outros territórios existenciais onde a humanização seja viável, percebida e vivenciada.

Se o deslocamento – conceitual ou identitário – tem sido regra percebemos também um continuum no existir gestado pelo imaginário camponês, misterioso e fora do alcance da razão pura – palavras, gestos, entonações, timbres, tonalidades das trajetórias de vida de pessoas com distintas origens culturais, mas que têm pela terra e pelo ato de interpretá-la uma característica única. Esta característica de inventar a terra e misturá-la com vida parece ser algo universal, mas só o é na sincronia com o local – uma “globalocalização”, às avessas, que universaliza na diferença, e assim escapam a todo instante do normativo e da massificação política e subjetiva, ao discurso único.

Na tentativa de ir ao encontro dessa “essência” e colocá-la sob rasura, surge uma terceira camada da produção audiovisual – nem áudio nem vídeo, uma terceira margem que pulsa em nós todos. A experimentação dessa terceira margem em imagens e sons é, no campo da linguagem, o que esta pesquisa busca contribuir para a discussão de conceitos tais como identidades, diferenças e política.

A expressão destes sentidos em imagem exercita outras possibilidades, onde os fragmentos possuem autonomia para procurar brechas desassociativas e expandir a criação imagética, aberto ao sensível na procura por dar ensejo às outras temporalidades do próprio universo camponês. O esforço de enredar essa terceira camada busca a força de alinhar, pela sensação e lembrança, um possível percurso, uma “verídica ficção” ainda não (vídeo)grafada e que se inscreve em cada pessoa, reescrita quando alguém a observa, desequilibrando a linearidade dogmática e alimentando a coerência com esse desmergulho da realidade intransigente que a práxis do “nós-eu” camponês vivencia. A pretensão aqui é alcançar essa narrativa duplo-hemisférica, semi-definida pela montagem de quem produz, semi-definida pela sensação do expectador que é produzida – apostando na memória camponesa culturalmente inscrita em todos nós.

As conexões não lineares que permitem o audiovisual parecem ter sua potência não exatamente no fato de não serem rigorosamente lineares, mas por acolherem elegantemente a autonomia: do pensamento, das inter-relações, da criatividade, do indivíduo e da coletividade – simultaneamente. O audiovisual assim possibilita à essa unidade “nós-eu” elaborar diferentes normas, compreender as conexões que se realizam no interior do próprio pensamento; em suma, ser autônomo.

Que elementos inventivos permitiriam compartilhar esses significados? que experimentassem amalgamar, indistintamente, os atravessamentos que nos compõem, ciência, cidade, memória, arte, registro, pesquisa… provocar as fronteiras, nossos reducionismos introjetados, nossa capitania subserviente? E ainda assim que sejam politica e esteticamente localizados?

Coloca-se em análise uma linguagem audiovisual que dê conta de abordar pedagogicamente (ação educativa, comunicação social) a vinculação entre a potência estética e disruptiva e a força de resistência e criação da imagem com o abalo no universo possível gerado pela terra popularmente ocupada; vasculha peculiaridades da relação entre linguagem audiovisual e agroecologia – entendendo esta em sua perspetiva transversal à educação popular, à autogestão e à tecnologia social.

As imagens que as chamadas agriculturas populares projetam – intencionalmente ou não –, seus en-signos [54] talhados ao fogo da lembrança nas rotinas muito nossas, fagulhando desde dentro pelo miolo do íntimo sem que apercebamos, fazem proliferar memória recorrente, imorredoura. Resta qual sobriedade ou coragem pra rever e re-esculpir o tempo desvelando contra-modernidades no risco de reincidir em arcaicas lavouras? O que o sonho claro desse amanhã forjaria na memória de futuro? É terno o retorno ao campo?

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