Se existe uma irrefreável procura por algo real certamente não o encontraremos senão pela instabilidade do encontro com o outro. Mas o que desta alteridade camponesa, histórica ou contemporânea, atrai e faz gravitar sobre ela?

Polêmica e divergência em torno da definição conceitual de campesinato, agricultura familiar, pequena produção, são recorrentes nas linhas do pensamento social e antropológico. Tal indefinição serve-nos a pensar a flutuação identitária que dela decorre – ou em sua formulação quiasmática, não seria a identidade camponesa que transgredindo a fixação identitária geraria a indefinição conceitual ao passo que gera uma potência aproximativa?

Como poderíamos pensar essa relação que não se estabiliza, fugidia que é tanto no contato quanto na análise? Importa constatar a inoperância de alguns marcos conceituais ou limitações marcantes de linhagens acadêmicas quando faz-se objeto de pesquisa o campesinato. Capital, renda, trabalho, modos de produção, emprego de mão-de-obra familiar, condições ambientais da atividade agrícola… Como propor um entendimento da afetividade científica com o tema quando o conhecimento institucional, de onde parte esta redação, pouco converge?

Mais valeria destacar do conjunto dos estudos aqueles que dizem “sim”, que fazem gravitar o que pertence ao interstício do intelecto: os sabores da porção que sente, que se afeta diante o outro que interessa, estudo anarquista que se deixa levar pelo que pensa o campesinato, pois que ele mesmo anarquiza: personalidade desviante que escapa ao completo intercâmbio capitalista, insufla reciprocidades e age enguiçando a máquina que produz desnecessidades… Por instantes desmobiliza a feitura de “consumidevoradores” e abre respiros pra outras identidades.

A princípio vale lembrar uma compreensão em torno da configuração identitária e os elementos de subjetivação – “modulações metamorfoseantes num processo sem fim, que se administra dia a dia, incansavelmente”. Tribalizar e destribalizar, parece ser esse ritmo que acomete a nós alçados em infomarés globalizantes, “como se fôssemos todos homeless, sem o “em casa” de um sentimento de si, ou seja sem uma consciência subjetiva palpável – familiaridade de certas relações com o mundo, certos modos de ser, certos sentidos compartilhados, uma certa crença.” [11]

Se não é verdade que a casa subjetiva desapareceu, é na mudança radical em seu princípio de construção que nos deslocamos, familiarizados ao modo antropofágico sintonizamos “as transfigurações no corpo, efeitos de novas conexões de fluxos”, pegamos a “nova onda dos acontecimentos que tais transfigurações desencadeiam”,

desenvolver uma prática experimental de arranjos concretos de existência que encarnem estas mutações sensíveis; inventar novas possibilidades de vida. Tais operações dependem, por sua vez, do exercício de potências do corpo igualmente inativas na subjetividade contemporânea: expandir-se para além da representação, conquistar uma intimidade com o corpo como superfície vibrátil que detecta as ondas antes mesmo de eclodirem, aprender a pegar onda, forjar zonas de familiaridade no próprio movimento – ou seja, “navegar é preciso”, senão o destino será muito provavelmente o naufrágio. Um “em casa” feito de totalidades parciais, singulares, provisórias, flutuantes, em devir, que cada um (indivíduo ou grupo) constrói a partir dos fluxos que tocam o corpo e sua filtragem seletiva operada pelo desejo [12]

Leio nas palavras de Suely Rolnik a transfiguração que percebo – subjetivado pelas lutas dos movimentos sociais do campo senti eu mesmo minha casa invadida, ocupada pelas possibilidades de vida que se inventavam ao decompor imobilismos pelo êxodo urbano promovido – escape, exílio-luta de um modo miserável de ser. Espaço refeito, muros abaixo, outra marquise levantada nessa casa ocupada que hoje acomoda à percepção das reivindicações socioambientais diferente distribuição demográfica nos territórios, outra relação rururbana.

Ainda assim, Rolnik atesta a predominância de um regime “em casa” identitário causada pela força do hábito, mas principalmente “por força do modo hegemônico de subjetivação no neoliberalismo mundial integrado, que precisa do regime identitário para funcionar e que mobiliza este hábito em nosso desejo, como dispositivo essencial para sua efetuação” [13], sendo necessário, ainda que construindo e desconstruindo territórios existenciais, que esta subjetividade desterritorializada encarne identidades prêt-à-porter, requeridas para produção e consumo das tendências momentâneas do mercado.

Contudo, não me parece ser este o único vetor. Não estamos a “choramingar de saudade da casa enraizada”. Entender assim as afirmações identitárias seria, por um lado, superestimar a aderência ao capitalismo integrado (O território brasileiro é ainda maior (significado) do que o ímpeto “civilizatório”) e, por outro, subestimar a consequência política que este “entrincheiramento” de grupos étnicos, raciais, religiosos, sexuais e de classe tem em propor impermeabilidades – não há cooptação quando é a propriedade privada que está em cheque na ação sem-terra. Ao menos o establishment ainda não soube reagir sem cassetetes, coturnadas e mesmo a supressão de vidas. As manifestações de maio de 2013 parecem corroborar essa hipótese, o Movimento Passe Livre (MPL) já sofre a violência policial desde a década de 90, e a reação frente às espoliações das terceirizadas do transporte público igualmente foram recebidas às bombas e balas de borracha [14]. Ali o atravessamento de classes persiste.

A vida metropolitana dos últimos 30 anos é permeada de fatores metamorfoseantes. Entre o fixo e o fluxo identitário parece haver uma ciclicidade e em cada polo há virtudes que correspondem à “filtragem seletiva operada pelo desejo” tanto quanto à maturidade política cabível. Por um posicionamento político vale o peso de uma marcação e uma fixação representativa? uma certa postulação? cristalizar uma verdade para que se desfaça… Por um esforço de não cooptação e resistência na minoridade vale a perspectiva deslocada, a aposta na potência falseante, a fabulação redentora que consagra o valor da adaptação? [15]

A complexidade do tema expõe assuntos de relevância. Por um lado a flexibilização identitária leva-nos a uma “abrangência aproximativa”, que nos afeta frente a novas bandeiras e sentimentos, por outro a demarcação identitária, ainda que polêmica, faz surgir insurreições na ordem e rompe órbitas semânticas, estica horizontes, recobra uma memória que se efetiva no porvir, uma memória de futuro.

arranjo_familias_2É neste cenário amalgamado, subjetividades antropofagocitadas que igualmente se dá a fusão de memórias latentes – a herdada, familiarmente retrilhada, e a de futuro que responde ao âmago do íntimo. O retrato [16], pintado à tinta ou grafado à luz, dá a ver qual família? a que foi a que é ou a que virá? Entre enraizamentos e descolamentos, o que importa? resistir à fragmentação, ao apagamento do camponês que nos mora destituindo assim fecundo vínculo que une a cidade ao campo e fortalece a pegada ideológica que sintetiza a vida mercantilizada, mediada pelos aparatos industrialistas que coisificam o produtor e a produção rural e desmantela a intenção agricultural e/ou agroecologista?

Quanto do fixo e do fluxo deste “em casa” se relaciona com a idealização do mundo ou com sua reificação constante? Que postura ter diante da possibilidade de pensar e criar com o caos… estimular violações campesinas, fagulhas de transformação, que irrompem demarcações culturais? Qual estratégia pedagógica vale assumir para aventar estados de campesinidade provisória?

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