proposta_1

Entre os atos, fatos ditos nas minhas telas,
algo subsiste por um contínuo que transpassa…
os próprios atos, os próprios fatos.
Mas de outra camada, de outra tessitura.

Ditam palavras: escritas faladas. Falácias.
Fazem piadas: frias, insensatas.

Nem uns, nem outras, boca calada.
Todo dia na rima enxada-madrugada.

Subsiste. Persiste. Sob vã monotonia,
beijo-linha-de-montagem.
Refaz-se sobre ele amor-densidade,
acontecência poética
um tanto mais lúcida, desperta.

Trigo de pão, futuro na mão,
lâmina que ceifa sob a face do chão
toda fome de sim, fazendo húmus do não:
não-emoção, não-brincadeira, não-violão,
não-coragem, não-participação, não-inexato,
não-mistura, não-história,
não-coração.

História da terra-nós-eu, galhinho nascido
da aurora dos tempos, do tempo em que
não havia invenção do tempo,
berço das folhas tenras e
da incipiente consciência.

Com ciência de que?

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[O texto completo em pdf da dissertação pode ser acessado aqui.]

Assume-se aqui o fator instável, da escrita esboçante de um pensamento que é nômade no passar das horas. Assume-se também o fator estável, de escritas que levam parecença do tipo escavada dos sítios arqueológicos, reminiscência soterrada como signo de uma parada nômade, pois que todo (pensamento) nômade o é devido seu pouso. Em outras palavras, não se ajusta os argumentos a um alinhamento nem de escola nem de teorias gerais, mas se flutuam nas teorias do conhecimento (se ingenuam?) por vezes se sedimentam em experiências vividas.

O encontro então é múltiplo.

A pesquisa serve pra tornar redigido um deles, específico da construção social circundante que de alguma forma me tomou, e aposto eu, nos toma a todos de uma maneira que vale partilhar pela singularidade do que o verbete campesino fecunda em cultura. Se ele – verbete – nos atravessa desde o século XVIII é porque sua persistência enquanto forma designativa se renova por dobramento e desdobramento incessante, caso contrário a forma já teria se desintegrado. O desafio (preliminar?) desta travessia acadêmica tem sido expressar esta (des)dobra na linguagem que se alcança: letras, luz, contraste e imagens.

E talvez seja este desafio que multiplica os encontros. Encontro com pensamentos de teóricos mas sobretudo com o pensamento das pessoas com as quais estudamos teorias e teóricos; pensamento povoado, fragmentário mosaico de considerações que nos argamassam e nos distinguem.

Encontro com as forças que fazem argamassar na elaboração de comuns, artes interpretativas, os esforços de educação, de curso e programa, as práticas institucionais e as históricas, na confundibilidade entre a razão dos fatos e a razão das ficções que nos promove a poesia e sua ordenação das ações e coisas que já foram e nos proporcionam inteligibilidades comungadoras, jogos deleitosos – e sensuais – de saber, que ao gerarem coordenações de atos nos proporcionam a gastrologia do conhecimento.

Encontro com as forças que fazem distinguir, nos ofertando contraste e perspectiva, mistério, indecisão e convicção dos limites, intrínseca agnosia. Encontro com as vontades, sedes, desejos que nos conduzem ou descondizem com as vontades, sedes e desejos de saciar os vazios, sem que para tal nos tornemos pretensas verdades do senso comum, escravos de falso preenchimento comerciado.

Uma assunção da inexorabilidade dos encontros…

Disse uma vez o poeta que a vida é a arte dos encontros. Mas não se esqueceu de dizer – como que adequando sua poética – que apesar dessa máxima frequentes são também os desencontros. O encontro parece ser um fenômeno de alta popularidade, em todos os tempos. Mesmo a incerteza geográfica de onde vieram nossos humanos ancestrais, ainda que menor do que a que tenta encerrar a perdição do elo perdido entre nossas espécies, não carrega dúvidas de que encontros houve, talvez partindo do extremo sul da África, talvez do extremo norte ou até mesmo da Europa, mas de todo modo enfrentando a beleza e a dor de lidar com o diferente, o outro.

Entre expandir e disseminar, explorar e se estabelecer para depois migrar e reencontrar, não paramos mais. Da chegada na Ásia Menor e sul Asiático nos arriscamo-nos pelas ilhas Diomedes no Estreito de Bering, para descortinar, de norte a sul, o mundo novo do Novo Mundo. Mundo esse que, mais tarde, foi redescoberto por quem tinha gana de mares (e de ouro e tesouro), pelo menos assim nos contou o homem “mais velho” do Velho Mundo. Que afinal não fizeram nada de novo, só fizeram tudo de novo o que todos, no mundo todo, andavam a fazer: Navegar, navegar.

O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso…

O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso

O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso… [1]

Chineses, vikings e polinésios, todos ao seu tempo-espaço navegaram. Mas ao nosso olhar e à nossa pele (vermelha), imemoráveis foram os ibéricos, como quem já indiciasse as primeiras sílabas de uma longa condenação, mais tarde cunhada com o termo glo-ba-li-za-ção. Que atravessem os oceanos, que colonizemos sem exceção, e a cada expansão um novo outro era descoberto, pra deliciar a corte de exoticidades. Esse misto de espanto e deslumbre ainda hoje é motivo de cosmopolitano espetáculo – o próprio desencontro, prestes a se tornar encontro, é em si algo carregado de mistério. Uma outra múmia descoberta, um outro esqueleto ancestral escavado, um fóssil vivo dos mares abissais do norte capturado, rudimentos de Homo sapiens encontrados numa geleira do ártico… fantástico. Fico a imaginar aquelas tribos indígenas numa remota aldeia localizada em algum canto da vasta floresta úmida e sombreada, amazônica, estranhamente anunciada por notificação institucional: “foi descoberta uma nova tribo de índios isoladas que nunca tiveram contato com o homem branco e que eram desconhecidos até então”.

Homem branco, homem vermelho, amarelo, preto… a própria nomenclatura já nos traz o indício dos séculos, fio da meada de históricos (des)encontros, ruína de toda intenção conciliatória ou destruidora. Talvez por isso, pelo extremo dos encontros, é que tenham surgido disciplinas como a própria antropologia, um esforço intelectual de investigar o outro, outro este não-ocidental, não-branco, não-europeu, não-eu. Quem são estes que não sou eu? E desembarcamos com Malinowski a saber de outros argonautas e sua cultura não ocidental. A noção linear do evolucionismo enxergaria ele como um civilizado em meio a selvagens tentando dizer a outros civilizados que os selvagens, por terem suas regras, sua coerência e sua lógica, deveriam ser entendidos a partir de sua própria construção cultural, ou seja, que os selvagens não eram selvagens, mas “civilizados” ao seu próprio tempero. A partir de um rigor descritivo quanto a seu método de trabalho em campo, Malinowski buscou decifrar conceitos e símbolos dos habitantes das ilhas Trobriand, inaugurando definitivamente a ferramenta que exercita “olhar o mundo do outro com os olhos do outro”: a etnografia.

Malinowski parece ter inaugurado mais do que isso: Juntamente com Franz Boas lançou a faísca do relativismo cultural e talvez tenha pré-anunciado o impacto que a ciência moderna receberia ao longo do século XX. O novo olhar da antropologia social nos dizia da importância de estudar a cultura de uma comunidade em sua totalidade, evitando os jargões “selvagens” e questionando a ideia evolutiva de cultura e o etnocentrismo. Novos parâmetros filosóficos seriam absorvidos pela antropologia, notadamente aqueles que Levi Strauss consolidaria pelo conjunto de sua obra.

Ainda assim, parece haver em Boas uma gradação entre os povos, em mais ou menos civilizados/primitivos. O que marca a civilização? Existe algo que nos universaliza, enquanto agrupamento humano? A tensão entre o universal e o relativo parece desafiar o pensamento que busca respeitar as diferenças ao mesmo tempo em que contempla alguma declaração universal, seja de direitos ou deveres. Qual alcance tem a ciência, em sua missão universalista? Curiosamente, mesmo o estruturalismo, alicerçado em um forte modelo científico que traduz a diversidade humana em regularidades, leis e padrões, fez-nos concluir, ambiguamente, que a ciência não necessariamente traduz um melhor conhecimento, ou que ela produza, a seu tempo, o ápice do que podemos conhecer; a ciência do “civilizado” não é melhor que a magia do “selvagem”.

Eric Wolf argumenta que a divisão funcional do trabalho entre os que cultivam e aqueles que detêm o poder estabelece o marco da civilização – para todas as sociedades, indistintamente? em todos os períodos da história? E quanto à ONU e o mundial pacto civilizatório? e o advento das redes mundiais, a internet como instrumento de consolidação da civilização, unificando todos? Observar o uso informal do termo “civilizado” não deixa dúvidas: sobram incertezas na tentativa de significá-lo. Até que ponto podemos estabelecer identidade de valores – mesmo que basais, ou tênues – econômicos, morais, religiosos? Sempre teremos uma impressão filtrada pelo que somos socialmente construídos? ou somos capazes de captar o “big picture” das coisas? Ainda que nascendo no mesmo seio cultural, encontramos ainda significativas diferenças entre os indivíduos…

Ainda assim, nesse navegar entre tantos outros além-nós, clamamos por portos seguros, intersecções que a todos nos toquem. E parece-me um alívio, como quem ancora em terra firme, ver ressoar o pensamento de Levi Strauss que diz “O espírito humano é sempre idêntico a si mesmo e predomina sobre o social e o histórico”, e que seja quem for, em qualquer rincão deste vasto mundo-raimundo “temos a mesma estrutura lógico-intelectual, que torna irrelevante a sua aparente diferença histórica”, uma lógica universal do intelecto humano… [2]

Da janela o mundo até parece o meu quintal
Viajar, no fundo, é ver que é igual
O drama que mora em cada um de nós
Descobrir no longe o que já estava em nossas mãos

Minha vida brasileira é uma vida universal
É o mesmo sonho, é o mesmo amor
Traduzido para tudo o que o humano for
Olhar o mundo é conhecer
Tudo o que eu já teria de saber

Estrangeiro eu não vou ser
Ê, ê
Estrangeiro eu não vou ser
Eu não!
Cidadão do mundo eu sou [3]

Mas o mar, bravio de sempre, a seu exemplo nos mostra que nem sempre o porto é seguro e acolhedor. A inegociabilidade da terra firme e a desqualificação da ideia de uma lógica universal feita em Estado representa, muitas vezes, a aniquilação de um ponto de vista, de um olhar. Refrão moderno e ocidental, supra ponto de vista que ganancia à (certa) universalidade excomungando dualismos; coloca a diferença em desconfiança enquanto articula xenofobias ao que é feito estranho e destoante, desalinhos a uma eleita política.

Se o Estado é sempre fato consumado, como torná-lo um ponto de vista e não “o” ponto de vista? desenraizar a terra, tornar maré sua firmeza, conjurá-la em ressaca tectônica. Uma terra atracada em vias de embarcação que se despede do cais, de um cais, pra facear vertigens; terra arquipelágica que inunda e é inundada, mar em continência, azul cor-de-terra [4]

azulterraO que se empresta da antropologia nessas linhas então é este caminhar/navegar pelas beiradas do sentido definidor do eu e da alteridade; é a constatação da existência de estelionatos fenomenológicos de povos e etnias, fios que nos tecem? Viveiros de Castro pensa uma conjuração-antecipação do Estado que rompa com a captura e a “sobrecodificação” cultural, uma insubmissão a qualquer forma de monarquia ontológica.

Terra-campo à deriva que ganha a multiplicidade de sentidos e plantares que a supervisão monocultural faz que não floresce. Se Viveiros de Castro pensa um perspectivismo ameríndio, do que seria capaz a ideia de uma ontologia campesina? que pudesse inundar os monolitos da cidade e igualmente promover a vertigem citadina, confluência lá e cá, enraizamento em urbanidade e plena malha campestre…widget2 [5]

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